domingo, 19 de fevereiro de 2012

Daqui a pouco

Daqui a pouco
vai acabar o horário de verão
as chuvas darão trégua
a casa ficará vazia
vai mudar o coração.

Daqui a um tempo
vou melhorar a alimentação
seguirei meu programa de exercícios
tirarei os agasalhos da gaveta
voltarei a tomar o chá da estação.

Soon or later
pretendo voltar a escrever
colocar em dia as leituras
conversar com meus amigos
fazer confidências ao silêncio
o silêncio
o silêncio.

Cedo ou tarde
o tempo oscilará
e só restará um rato
ou um pouco de pó pelos cantos
escondendo um brilho resistente.
Às vezes um olhar.
Às vezes um fio.

(19.02.2010)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Seleção Loser para o Carnaval

Você está cansado de ouvir as mesmas marchinhas mofadas de Carnaval, ano após ano? Não aguenta mais escutar aqueles sambas-enredo que parecem todos iguais? Já está confundindo a voz dos comentaristas da Globo com a narração do Galvão Bueno na última Copa?

Seus problemas acabaram!!

Acesse os links abaixo e ouça com exclusividade pública a seleção musical que vai salvar o seu Carnaval. Clássicos da nossa MPB reunidos, ao lado de canções não tão conhecidas, mas que devem por obrigação figurar em qualquer lista decente de músicas pra animar a galera. Terminando, é claro, com o hino de todos os carnavais loser.

E não adianta disfarçar... a gente sabe que você já se empolgou e dançou loucamente, ou chorou freneticamente de emoção, com pelo menos umas cinco dessas.

Confira... e que o Feno esteja com você na folia!!!

GUIA INESQUECÍVEL DO CARNAVAL LOSER


Garoto de aluguel - Zé Ramalho

Amante profissional - Baton na Cueca





Morango do Nordeste - Frank Aguiar

Transas e caretas - Trio Los Angeles




Eu não sou cachorro não - Waldick Soriano

Emoções - Roberrrto & Eráishmo

Unidos do caralho a quatro - Hermes e Renato

(15.02.2007)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Tá contigo, Riobaldo


Já posso ouvir o som dos tamborins e pandeiros. Bundas se proliferam na televisão. E ele, esse evento tão esperado, dá de novo o ar da graça na terra brasilis. Vocês sabem de quê eu estou falando.

Pois bem. Esse será um Carnaval atípico para mim. Pelo menos nos últimos 3 ou 4 anos, gloriosamente, eu havia conseguido fugir, de um jeito ou de outro, do Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial pela TV - manobra que constitui espécie de ritual de alforria, um tipo de vingança aos anos de nerdismo em que eu não tinha nada de útil ou interessante para fazer no referido feriado, enquanto o resto do país (incluindo meus amigos adolescentes) se afogava em cerveja e outros quetais, além de beijos e amassos desconhecidos e desenfreados, é claro, nesses salões e avenidas da vida.


Sim, como boa adolescente revoltada com a vida Beverly Hills de meus colegas de escola, eu ficava em casa amaldiçoando os dias de folia e engolindo pedaços da narração futebolística das escolas de samba feita pela TV Globo, madrugadas adentro, enquanto rezava pra tudo aquilo acabar. Eu bem que tentei me integrar ao sistema naquela época, ir a alguns bailes e desfiles. Até me diverti algumas vezes, posso dizer. Mas, para alguém com inclinações sentimentais, o Carnaval pode ser festa cruel. Naqueles dias de folia, nem pensar em encontrar alguém por quem o coração batesse mais forte, por exemplo - todo e qualquer olhar estava fadado a evoluir pra uns amassos atrás do pilar do clube da cidade, ao som de pagodes e em meio ao cheiro de lança-perfume, até ser compulsoriamente esquecido, ou trocado por outro, bem antes da quarta-feira de cinzas. A adolescente que fui, com seus pendores Álvares-azevedianos, não via graça alguma naquela dança das línguas a que meus amigos se dedicavam com furor.


Mas o tempo passou, é claro - o que, vejam só, pode trazer uma série de vantagens. No caso do feriado momesco, por exemplo, a autonomia conquistada pela adultez trouxe também a liberdade de escolha do quê fazer, para onde ir e, principalmente, com quem ir e que tipo de música ouvir durante os fatídicos dias. Não que eu seja uma furiosa contra a cultura popular (o que, além de inverdade, seria, no meu caso, perfeito suicídio profissional), mas sou, antes de tudo, uma amante do livre-arbítrio. Acho maravilhosas as festas populares - as *verdadeiramente* populares, é bom que se diga, e não essa enganação de abadás e trios elétricos que segregam o povão por cínicas cordas, nas mesmas ruas que essas pessoas ajudaram a construir e que são suas para o trabalho e para a vida no resto dos dias do ano. Acho lindas as músicas, a movimentação, o ânimo popular de quem dá vida e história a essa festa tão nossa. Aprendi a apreciar o verdadeiro significado cultural do evento, que em cada canto do país se mostra de um jeito, reflete nossa história e alegria, e que pode ser tão distante das músicas e imagens pasteurizadas que vemos sempre pela TV. Mas, acima de tudo, descobri também a liberdade de escolha pessoal de se retirar, ir para algum lugar no meio do mar, da areia, do campo ou de pessoas queridas, e voltar pra casa na quarta-feira com as baterias recarregadas, cheia de paz na alma e ânimo pra fazer boas coisas no dia-a-dia. E sem a obrigação adolescente (que alguns levam pela vida afora, ó miséria) da pegação obrigatória e declarada, tal qual linha de montagem.


Enfim, tudo isso para dizer que meus últimos carnavais, com ou sem beijo na boca, têm sido muito não-convencionais e absolutamente felizes. Para esse aqui, claro, também tinha planos. Planos de fugir do mundo pra um lugar que me trouxesse imensidão da alma, que me fizesse pensar e sentir boas coisas para mim e para outros queridos. Porém, esses tempos de caos nos aeroportos e curta grana (por bons motivos, felizmente, mas ainda assim curta) me forçam novamente, depois de anos, a uma estadia momentânea no lar, doce lar. Por um momento, senti a angústia adolescente se avizinhando. Traumas? Sim. O que fazer para não transformar o feriado novamente num repeteco azedo do Show da Virada do Faustão?


Algumas hipóteses surgiram no horizonte. Amigos queridos, em momento financeiro-social semelhante, sugeriram um roteiro alternativo-cultural pela selva de pedra. Grande idéia, sem dúvida. Afinal, como típicos paulistanos, carregamos muitas vezes a frustração por conhecer tão pouco dos lugares da terra onde vivemos, em contraposição aos encantos de outras cidades por vezes mais longínquas. Por que não aproveitar a metrópole vazia para mergulhar um pouco mais em sua alma, conhecer aquilo que ela traz de mais típico e belo? Sim, boa pedida. Outras idéias também vieram. Para os dias da semana subsequentes à folia - que, ó Lei de Murphy, justamente nesse ano, terei livres - um pulo à casa de mamãe e papai para bater o ponto e para descansar, sentindo o cheiro bom de lar. O que mais? Escrever, pensar na vida, tentar quitar pendências de estudos atrasados, etc, etc...

No meio do trivial e do variado, porém, outro pensamento me acorre. Esse, carregado de lembrança afetiva e da expectativa, agora sempre perene, de novas paragens. E eis que, no domingo que antecede o feriadão sambista, entro na internet com parada certa. Acesso uma livraria online e faço a encomenda que pisca em minha mente, por motivos diversos, há alguns dias: Grande Sertão, Veredas. Não, eu nunca li Grande Sertão, Veredas, apesar de ter me encantado com a história de Miguilim (também na adolescência) e de já ter até mesmo andado, sacolejantemente, por alguns dos caminhos percorridos por Guimarães naquele mundão mineiro de meu Deus. Pois muito bem, está na hora do coração descobrir o que os olhos já viram com a poesia dos raios de sol e de borboletas amarelas. Já que não viajo fisicamente, vou proporcionar essa viagem à minha alma: dedicarei meus feriados a descobrir o Grande Sertão. Nos próximos dias, ele deve estar chegando para me fazer companhia. E, quem sabe, me inspirar em novas empreitadas - cheias de poesia, brilho nos olhos e expectativas várias.

Depois conto aqui o que achei e que presságios essa bela viagem, já prevejo, me ajudará a realizar. Por hora, deixo um pensamento do livro citado, que espero encontrar durante a leitura:

"O importante e bonito, no mundo, é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou."

E, terminando de expulsar os fantasmas da nerdice adolescente, lembro ainda uma frase muito reverenciada pela galera que entende do assunto (se alguém souber o autor, por favor me diga, já que infelizmente não lembro agora): Rock'n Roll saves lives. E um bom livro também. ;)

(12.02.2007)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O que me deixaria feliz hoje?

O fim da corrupção?

Que a hipocrisia saísse de moda?

Que meu espírito evoluísse?

Que os caixas de supermercado sempre tivessem troco?

Que meu ônibus nunca atrasasse, e sempre viesse vazio?

Um ar-condicionado que funcionasse (ecológico, é claro), para aliviar o calor senegalês desta sala cheia de almas escarpadas?

Ou ainda melhor, janelas abertas para sentir o vento? Ou para voar?

Um revisor eficiente? Um editor são?

Uma língua sem cacófatos?

Uma internet isenta de mal-entendidos e páginas não-carregadas?

Uma carona depois do trabalho?

Um chopp gelado?

Uma massagem com luz indireta?

O fim do efeito estufa?

Dinheiro infinito na conta?

Um beijo inadvertido? Sincero? Arrebatador?

(05.02.2007)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Graças


"Acho que tudo que fiz é válido, senão não teria feito." (Neil Young)

Obrigada, Mãe Yemanjá, pela capacidade de banhar em amor.
Obrigada, Mãe Athena, pela bravura e sabedoria do sempre resistir em essência.
Pai Oxaguiã, fortaleça o equilíbrio da guerreira que mora em mim.
Obrigada, Pai Ogum, por abrir os caminhos.
Obrigada, Saturno, por me dar pernas e joelhos fortes para trilhá-los.
Obrigada Beiji, pela capacidade de sorrir com as coisas simples quando nada mais parece restar.
Obrigada meu Anjo da Guarda, por me guiar pelas bênçãos que eu mesma possa não pressentir.

Mãe Oxum, com sua alma doce, limpe minha alma neste novo ano.
Mercúrio, meu Esposo, me leve em vôo alto e belo em suas asas.

Obrigada a todas as mulheres da minha vida, mães, familiares e ancestrais, cuja força e comunhão senti de forma tão especial nesta noite de virada de ciclo, me fazendo crer novamente no quanto estamos todas vivas, unidas, fortes e prontas.
Que a Senhora que brilha no céu nos continue a ensinar a arte de renascer sempre a cada giro da vida.

A todos e todas, meu infinito e eterno Amor.

Graças dou por esta vida, pelo bem que revelou,
Graças dou pelo futuro, e por tudo que passou.
Pelas bênçãos derramadas, pela dor, pela aflição,
Pelas graças reveladas, graças dou pelo Perdão.

Graças pelo azul celeste e por nuvens que há também,
Pelas rosas no caminho e os espinhos que elas têm,
Pela escuridão da noite, pela estrela que brilhou,
Pela prece respondida e a esperança que falhou.

Pela cruz e o sofrimento e pela Ressureição,
Pelo amor que é sem medida, pela paz no coração.
Pela lágrima vertida e o consolo que é sem par,
Pelo dom da eterna vida, sempre Graças hei de dar.

(Hinário Luterano - comp. August Ludvig Storm)

(01.01.2011)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Olhicerúlea

Ilustr. Stephanie Pui-Mun Law

Ninguém pode dizer o que vai pelo coração de uma mulher. O continente negro, como chamou Freud. O oceano infindável, o olhar profundo que vasculha com exatidão as almas alheias. Para aprender a ser mulher, há que se viver uma vida toda. Ou muitas. Nessas coisas a menina já pensava muito antes de perceber que pensava. Aliás, sempre pensou muito, essa menina. Um arsenal de espadas rodopiavam pela sua mente, às vezes afiadas, às vezes ferinas, às vezes intuitivas e adivinhatórias, mas sempre velozes. Ensinaram muito a ela, embora tenham cobrado de seu estômago e de sua paz de espírito algumas contas. Com o passar dos anos, a menina foi aprendendo a se equilibrar nas ondas do pensamento e nas tormentas do sentimento que havia dentro dela. Equilíbrio para o qual, também, há que se ter tempo. Um tempo de observadora, de estrategista até. Tempo de quem ouve mais do que fala, dos silêncios de uma mente ocupada com o que vai por dentro, comparando, perguntando em silêncio. Tempo de quem precisa se entender e vai tentando também entender os outros, sem movimentos bruscos, com palavras econômicas porém certeiras e o olhar perguntador de um quase sacerdócio de auto-conhecimento. Um tempo de Sacerdotisa.


Mas os caminhos de dentro também se revelaram atalho para o mundo lá fora. A menina percebeu que seria impossível se conhecer totalmente sem conhecer o outro, sem conhecer o livro do mundo, sentir sua luz nos olhos, seu calor na pele e seus caminhos sob os pés. Então decidiu correr por aí, por terra, por palavras ou até mesmo por lembranças suas e de outros. Usou a mente e o coração fundos da Sacerdotisa para traçar novas rotas nas terras de fora. E assim, dando voz aos pensamentos e enchendo os cálices da sensibilidade, percebeu que também suas palavras poderiam ser sementes de novas vidas. Pedaços de história que ela poderia alinhavar com as de outros, com a sua própria, com a história do céu e da terra. Viu germinar os caminhos que escolheu, assim como suas palavras nos corações das pessoas que, como ela, vinham de solo assim mutante, assim fértil. Domou o medo, nutriu-se do pomar de amizades, carinhos e sonhos que esses caminhos lhe proporcionaram. E forjada em amores, lutas e dores, se descobriu também Imperatriz.

Essa menina, porém, ainda achava que não sabia nada. E continuou buscando, andando, mudando. Ficava angustiada em acreditar que, quando mais se anda, menos se sabe. Até que, um dia, vieram as idéias, trazidas pelas espadas já companheiras, em movimento silencioso e certeiro: de que o viajar é a grande lição da viagem. De que a música não é feita apenas de sons, mas também do intervalo de silêncio entre as notas. E de que, como bolo em cozimento, a sabedoria vai se formando assim, no silencioso do coração, até que um dia brota com cheiro de comida fresca na nossa mente.

Depois disso, a menina já anda com mais calma pelas estradas da vida, ainda tentando entender os repentes e voltas de sua natureza humana e feminina. Mas já agora, degustando a sabedoria do instante, aparando as arestas e buscando a dança sincrônica com as espadas que ainda voam - ouvindo com atenção as histórias do que há lá na frente, lá longe ou aqui ao lado. Em meio às tempestades e estios, cultiva com orgulho sereno seu lado aprendiz, na leveza de uma criança de copas. A cada dia, busca nadar melhor nas correntes profundas da sabedoria desse Sacerdócio. E nesta toada, vai lançando sementes douradas que formam, ao lado das famílias da alma, seu novo caminho e colheita.

(20.12.2009)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Conto de Natal

A menina morava numa cidade pequena, numa casa com quintal que ia até o outro lado do quarteirão. No quintal tinha de tudo: galinha, árvore de fruta, horta, cachorro. E pinheiros. Pinheiros que a mãe da menina cultivava todos os anos para vender na época de Natal. Quando chegava o começo de dezembro, ela mandava o marido separar algumas mangas fresquinhas da melhor árvore do quintal e colocar numa sacola. "Aquela senhora com os dois meninos vem hoje!".

O carro encostava em frente à casa de quintal grande, num bairro afastado da cidade, e dele saía a senhora com os dois meninos. Vinha também o irmão dela, alto e forte, para levar o pinheiro. Às vezes vinham de kombi, a kombi da empresa de gás do marido da senhora, que nem era tão senhora assim. E os dois meninos desciam junto, na carreira, e corriam para o fundo do quintal. Enquanto a senhora que morava no centro da cidade escolhia a árvore mais bonita, os meninos subiam nas árvores, gritando de alegria, e comiam todas as frutas que podiam. A senhora e a mãe da menina trocavam dois dedos de prosa e a dona da casa oferecia a sacola, cheia de mangas fresquinhas. Presente cheiroso de Natal. O irmão da senhora então pegava nas costas o pinheiro e saía reclamando, "isso pinica, pô". Os meninos vinham atrás, rindo e brincando, com cheiro de fruta.

A menina via e já esperava a mesma cena todos os anos. Tempos depois, na cidade pequena, precisou mudar de escola para seguir a vida. Ali, se encantou com os olhos verdes de um rapaz. Um dia, depois de trocas mútuas de expectativas, saíram. No final da noite, ele a deixava em casa, como todo bom rapaz de cidade pequena deve fazer. E, ao encostar no meio-fio, fez o comentário: "nossa, é a casa dos pinheiros".

E a menina, num segundo, olhou e reconheceu naqueles olhos verdes as mesmas risadas do menino que invadia sua casa todo dezembro. E viu que já conhecia, desde sempre, seu presente de Natal.

(15.12.2006)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Do que a gente precisa para mudar de vida?

Um choque elétrico?
Um chacoalhão?
Um grande amor?
Uma desilusão?
Uma fantasia?
Um furacão?
Um assalto ao banco?
Uma decisão?
Um atropelamento?
Um sim e um não.

(11.12.2007)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Trato entre iguais

A partir de hoje, nem eu e nem você vamos pensar primeiro em mentir para nos preservar. Não vamos mais seguir o jogo que nos ensinaram, em nome da proteção que não existe. Eu vou te ligar sem que você se sinta invadido, sem que eu me pergunte se sou louca por ter pensado em você num final de tarde. Você vai me ligar quando tiver vontade, sem que eu me censure pelos planos que farei ou pela alegria que me assaltar quando o telefone tocar.

Você não se sentirá covarde ao pensar em mim, nem deixará que seu sentimento seja questionado. Não perderá mais um segundo tentando não ser ou não sentir. Desafiará o senso comum - inclusive o próprio - em nome de sua autenticidade. Assumirá vontades antes que elas virem ilusão ou possibilidade perdida no passado. Conhecerá seus próprios pensamentos para que suas palavras saiam autênticas, sempre. E dessa forma eu jamais duvidarei delas.

Eu deixarei de acreditar em contos de fadas para acreditar na verdade, a verdade pura e cristalina de um ser de carne e osso, com mazelas e defeitos, beleza e grandeza, agruras e feridas, um ser como eu. Que traga consigo o olhar de quem procura um porto para os sonhos. Alguém disposto a tentar, errar e acertar sem colocar nos erros ou idéias de outros a culpa ou glória por seus atos. Alguém capaz de ouvir, escutar e falar o que tem que ser dito. Alguém que não demore para dizer a verdade, e não esqueça que, do outro lado, ela atingirá também um poço de sentimentos comprometidos com a própria realidade.

Façamos um trato: você me contará suas histórias, suas querências passadas, os carinhos que ajudaram a fazer de você um homem. Eu te falarei sobre as paisagens que avistei do mar, sobre os faróis que me guiaram e sobre os momentos em que decidi partir. E ambos consideraremos a escola da vida do outro como o caminho dileto que nos trouxe até aqui, até esse novo porto a que pertencemos.

E quando isso acontecer, decretaremos o fim do jogo, pois não haverá mais jogo para jogar. Tampouco vencedores ou perdedores. Haverá somente duas pessoas, cada uma com sua verdade, misturando claridades.

(04.12.2006)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Moratória

Desejo de sexta à tarde: um momento aberto, profundo e belo como um céu azul.

Com brisa, por favor.

(30.11.2007)