quarta-feira, 21 de março de 2007

Não se reprima

Foi hoje, na hora do almoço. Alguém puxou um papo do tipo "como estamos velhos" e todo mundo desandou a dar suas contribuições. "Ah, eu ouvi só vinil até os 16 anos". "Ah, eu passei a infância e adolescência todas sem saber o que era um celular. Internet, só na faculdade". "Ah, eu tinha um disco compacto da novela Estúpido Cupido".

É claro que não demorou para nos lembrarmos do clássico dos clássicos da infância 80. Sim, eles, que fizeram milhares de pessoas se estapearem em frente ao Macksoud Plaza em algumas tardes oitentistas, em sua vinda ao Brasil. Eles, que provocaram engarrafamentos em estradas no eixo sul-sudeste do país. Eles, que foram responsáveis pelos maiores micos infantis da geração de garotas hoje na faixa dos 25-30.

Mas a gente não lembrou deles assim de cara, não. Antes passamos por referências mais atuais (e copiadas dos pais do movimento, claro), tipo New Kids on the Block e Backstreet Boys. E nem foi no momento-confessional "eu fui uma seguidora de Boys Band" que nos lembramos deles. Foi, sim, na hora dos compactos de vinil, quando eu ganhei o prêmio de bizarrice sonora do ano com a seguinte declaração:

"Eu tinha um compacto de vinil flexível, de plástico, transparente, que ganhei numa promoção da Tang. Vinha com apenas uma música e antes de começar, tinha a declaração de um deles (acho que o Ray) num portunhol incrível: 'Oy, eu sou o Ray, e estoy mucho contente de cantar para nostros maravilhosos fans do Brazil'."
A canção em si não era das mais famosas, nem das que lembramos primeiro hoje em dia, quando falamos desses áureos tempos. Mas eu me lembro muito bem, era uma cujo clip eu tinha visto acho que no Fantástico. Nossos heróis porto-riquenhos apareciam numa espécie de navio pirata, vestidos de corsários espanhóis, e o filminho tinha direito a mocinha amarrada no mastro, tiros esfumaçados de canhão e uns bandidos fake em terríveis cenas de luta. Tudo para que Robbie, é claro, pudesse salvar o dia e cantar o refrão em inglês, no final do clip, no ouvidinho da mocinha. Uau.

Entre lembranças do show assistido pela tevê (meu pai, desde aquela época, tinha aversão a multidões e se negou terminantemente a me levar) e álbuns de figurinhas perfumadas, com as fotos dos moços em letrinhas douradas, deixo aqui uma saudação a todos que testemunharam a passagem desse verdadeiro marco histórico trash-pop pelo país. Porque todo mundo tem seu lado negro da força pra confessar. E nem só de RBD vive o homem. :)

PS - Empolgada em colocar aqui o link para a obra-prima cinematográfica que citei neste post, localizei no YouTube um clip bem diferente daquele que minha memória guardava: realmente há o navio, e as piratas, mas os moços em questão estão vestidos com as roupas deles mesmos (todas iguais, no melhor estilo Power Rangers), e apenas caminham por um forte à beira-mar enquanto as "moças-piratas" os seguem com o olhar. Nada de lutas ou tiros de canhão... prova de que nem sempre se pode confiar na memória de uma criança de 8 anos, ou de que, aos 8 anos, a gente tem mesmo o poder (bendito) de sair do chão muito mais fácil. :)

(21.03.2007)

terça-feira, 13 de março de 2007

Palavras

Penso que palavras são pequenas fadas, travestidas de sons. Perigoso mexer com elas. Ao menor sinal de indecisão, se rebelam e saem na carreira, arrastando incautos sentimentos. Larápias, bolem com pensamentos e vontades. Fazem cócegas nos desejos, confessos ou não.

Bravas, as bichinhas. Belas filhas, formosas meninas. Mas, gatas caprichosas, decidem sozinhas o momento de fuga. Perfazem vôos lépidos sobre nossas cabeças, com sorriso maroto de fadas, diante da estupefação geral. Não precisam de sentido: invadem mentes e olhos. À guiza de encantamento, criam redemoinhos no ar. 

Mas voltam à casa, ao ouvir nosso choro, para fazer-se de abrigo. Com a graça de crianças novas, nos pegam pela mão e nos lembram de que nós mesmos, anjos caídos, construímos casinhas no ar. Moradas de fadas.

Caso seja imperativo tirar-lhes a amplidão, é mister fazer bom acordo. Ou vibrarão suas asas, perenemente, na mente do algoz iludido. Persistindo as amarras, chegarão ao coração - medida extrema, geralmente incurável.

Eis o preço a ser pago pelos adestradores de fadas: palavras esvoaçando na garganta, embotada em pó de pirlimpimpim. 

(13.03.2007)

quarta-feira, 7 de março de 2007

Manual de não-etiqueta em relacionamentos

Eu acho assim:

Que todo mundo tem direito de se apaixonar sem ficar se perguntando se tá certo ou se tá errado.

Que todo mundo pode se perguntar se fez a escolha certa alguma vez na vida, quando achar que precisa. E mudar o rumo do jeito que der, na hora que der. Sendo sincero consigo e com os outros. E sem ser crucificado ou execrado por isso.

Que as escolhas certas num momento podem não ser escolhas certas pra sempre. E nem por isso o tempo em que foram válidas merece ser desconsiderado.

Que ninguém devia ter vergonha de andar de mão dada com seu amor na rua.

Que o amor, salvo em casos de exagero ou doença, não pode fazer mal. O preconceito, a falsidade, a hipocrisia sim.

Que ser "normal", por outro lado, também não é passível de crucificação. É bacana ser louco e ser donzela, barbarizar e sonhar com o príncipe. É bacana ser a gente. E respeitar quem está em volta.

Que ninguém deveria falar essas coisas por pose e mostrar lados podres virando a primeira esquina.

Que dá pra defender os outros sem, necessariamente, ter sentido o que eles sentem na pele. Dá pra defender a compreensão.

Que dói se decepcionar e que a gente tem o direito de ficar puta se decepcionam a gente. Que ninguém é Super-Mulher o tempo todo.

Que mesmo com 30 anos a gente ainda pode dormir abraçada com o travesseiro num momento de carência ou saudade.

Que patrulha mesmo é aquela de quem não paga as nossas contas, não libera a micharia das idéias e acha que você tem que ser tão recalcada quanto eles. De quem acha, maniqueístamente, que amor é não conseguir ser você sem estar do lado de alguém.

Que tudo isso que acabei de escrever pode ser um bando de lugares comuns. Mas não tô nem aí se sou repetitiva. Tem coisas que a gente só aprende mesmo na base da exaustão.

Eu quero crer no amor numa boa
E que isso valha pra qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão...
(Lulu Santos)

PS - Este é um post totalmente adaptável. Onde se lê "amor", pode-se ler "trabalho", "ideais", etc., ao gosto do freguês.

(07.03.2007)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Seleção Loser para o Carnaval

Você está cansado de ouvir as mesmas marchinhas mofadas de Carnaval, ano após ano? Não aguenta mais escutar aqueles sambas-enredo que parecem todos iguais? Já está confundindo a voz dos comentaristas da Globo com a narração do Galvão Bueno na última Copa?

Seus problemas acabaram!!

Acesse os links abaixo e ouça com exclusividade pública a seleção musical que vai salvar o seu Carnaval. Clássicos da nossa MPB reunidos, ao lado de canções não tão conhecidas, mas que devem por obrigação figurar em qualquer lista decente de músicas pra animar a galera. Terminando, é claro, com o hino de todos os carnavais loser.

E não adianta disfarçar... a gente sabe que você já se empolgou e dançou loucamente, ou chorou freneticamente de emoção, com pelo menos umas cinco dessas.

Confira... e que o Feno esteja com você na folia!!!

GUIA INESQUECÍVEL DO CARNAVAL LOSER


Garoto de aluguel - Zé Ramalho

Amante profissional - Baton na Cueca





Morango do Nordeste - Frank Aguiar

Transas e caretas - Trio Los Angeles




Eu não sou cachorro não - Waldick Soriano

Emoções - Roberrrto & Eráishmo

Unidos do caralho a quatro - Hermes e Renato

(15.02.2007)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Tá contigo, Riobaldo


Já posso ouvir o som dos tamborins e pandeiros. Bundas se proliferam na televisão. E ele, esse evento tão esperado, dá de novo o ar da graça na terra brasilis. Vocês sabem de que eu estou falando.

Pois bem. Esse será um Carnaval atípico para mim. Pelo menos nos últimos 3 ou 4 anos, gloriosamente, eu havia conseguido fugir, de um jeito ou de outro, do Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial pela TV - manobra que constitui espécie de ritual de alforria, um tipo de vingança aos anos de nerdismo em que eu não tinha nada de útil ou interessante para fazer no referido feriado, enquanto o resto do país (incluindo meus amigos adolescentes) se afogava em cerveja e outros quetais, além de beijos e amassos desconhecidos e desenfreados, é claro, nesses salões e avenidas da vida.


Sim, como boa adolescente revoltada com a vida Beverly Hills de meus colegas de escola, eu ficava em casa amaldiçoando os dias de folia e engolindo pedaços da narração futebolística das escolas de samba feita pela TV Globo, madrugadas adentro, enquanto rezava pra tudo aquilo acabar. Eu bem que tentei me integrar ao sistema naquela época, ir a alguns bailes e desfiles. Até me diverti algumas vezes, posso dizer. Mas, para alguém com inclinações sentimentais, o Carnaval pode ser festa cruel. Naqueles dias de folia, nem pensar em encontrar alguém por quem o coração batesse mais forte, por exemplo - todo e qualquer olhar estava fadado a evoluir pra uns amassos atrás do pilar do clube da cidade, ao som de pagodes e em meio ao cheiro de lança-perfume, até ser compulsoriamente esquecido, ou trocado por outro, bem antes da quarta-feira de cinzas. A adolescente que fui, com seus pendores Álvares-azevedianos, não via graça alguma naquela dança das línguas a que meus amigos se dedicavam com furor.


Mas o tempo passou, é claro - o que, vejam só, pode trazer uma série de vantagens. No caso do feriado momesco, por exemplo, a autonomia conquistada pela adultez trouxe também a liberdade de escolha do quê fazer, para onde ir e, principalmente, com quem ir e que tipo de música ouvir durante os fatídicos dias. Não que eu seja uma furiosa contra a cultura popular (o que, além de inverdade, seria, no meu caso, perfeito suicídio profissional), mas sou, antes de tudo, uma amante do livre-arbítrio. Acho maravilhosas as festas populares - as *verdadeiramente* populares, é bom que se diga, e não essa enganação de abadás e trios elétricos que segregam o povão por cínicas cordas, nas mesmas ruas que essas pessoas ajudaram a construir e que são suas para o trabalho e para a vida no resto dos dias do ano. Acho lindas as músicas, a movimentação, o ânimo popular de quem dá vida e história a essa festa tão nossa. Aprendi a apreciar o verdadeiro significado cultural do evento, que em cada canto do país se mostra de um jeito, reflete nossa história e alegria, e que pode ser tão distante das músicas e imagens pasteurizadas que vemos sempre pela TV. Mas, acima de tudo, descobri também a liberdade de escolha pessoal de se retirar, ir para algum lugar no meio do mar, da areia, do campo ou de pessoas queridas, e voltar pra casa na quarta-feira com as baterias recarregadas, cheia de paz na alma e ânimo pra fazer boas coisas no dia-a-dia. E sem a obrigação adolescente (que alguns levam pela vida afora, ó miséria) da pegação obrigatória e declarada, tal qual linha de montagem.


Enfim, tudo isso para dizer que meus últimos carnavais, com ou sem beijo na boca, têm sido muito não-convencionais e absolutamente felizes. Para esse aqui, claro, também tinha planos. Planos de fugir do mundo pra um lugar que me trouxesse imensidão da alma, que me fizesse pensar e sentir boas coisas para mim e para outros queridos. Porém, esses tempos de caos nos aeroportos e curta grana (por bons motivos, felizmente, mas ainda assim curta) me forçam novamente, depois de anos, a uma estadia momentânea no lar, doce lar. Por um momento, senti a angústia adolescente se avizinhando. Traumas? Sim. O que fazer para não transformar o feriado novamente num repeteco azedo do Show da Virada do Faustão?


Algumas hipóteses surgiram no horizonte. Amigos queridos, em momento financeiro-social semelhante, sugeriram um roteiro alternativo-cultural pela selva de pedra. Grande idéia, sem dúvida. Afinal, como típicos paulistanos, carregamos muitas vezes a frustração por conhecer tão pouco dos lugares da terra onde vivemos, em contraposição aos encantos de outras cidades por vezes mais longínquas. Por que não aproveitar a metrópole vazia para mergulhar um pouco mais em sua alma, conhecer aquilo que ela traz de mais típico e belo? Sim, boa pedida. Outras idéias também vieram. Para os dias da semana subsequentes à folia - que, ó Lei de Murphy, justamente nesse ano, terei livres - um pulo à casa de mamãe e papai para bater o ponto e para descansar, sentindo o cheiro bom de lar. O que mais? Escrever, pensar na vida, tentar quitar pendências de estudos atrasados, etc, etc...

No meio do trivial e do variado, porém, outro pensamento me acorre. Esse, carregado de lembrança afetiva e da expectativa, agora sempre perene, de novas paragens. E eis que, no domingo que antecede o feriadão sambista, entro na internet com parada certa. Acesso uma livraria online e faço a encomenda que pisca em minha mente, por motivos diversos, há alguns dias: Grande Sertão, Veredas. Não, eu nunca li Grande Sertão, Veredas, apesar de ter me encantado com a história de Miguilim (também na adolescência) e de já ter até mesmo andado, sacolejantemente, por alguns dos caminhos percorridos por Guimarães naquele mundão mineiro de meu Deus. Pois muito bem, está na hora do coração descobrir o que os olhos já viram com a poesia dos raios de sol e de borboletas amarelas. Já que não viajo fisicamente, vou proporcionar essa viagem à minha alma: dedicarei meus feriados a descobrir o Grande Sertão. Nos próximos dias, ele deve estar chegando para me fazer companhia. E, quem sabe, me inspirar em novas empreitadas - cheias de poesia, brilho nos olhos e expectativas várias.

Depois conto aqui o que achei e que presságios essa bela viagem, já prevejo, me ajudará a realizar. Por hora, deixo um pensamento do livro citado, que espero encontrar durante a leitura:

"O importante e bonito, no mundo, é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou."

E, terminando de expulsar os fantasmas da nerdice adolescente, lembro ainda uma frase muito reverenciada pela galera que entende do assunto (se alguém souber o autor, por favor me diga, já que infelizmente não lembro agora): Rock'n Roll saves lives. E um bom livro também. ;)

(12.02.2007)

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Vamos falar a verdade

Então, tá. Chega de enrolar. A verdade é que eu não sou tudo isso. Não, muitas das coisas que sou - que até eu acredito que sou - são pura maquiagem. Eu fico tentando dar fôlego a coisas datadas. Crio situações. Eu me dou mal e não admito. As pessoas me magoam, às vezes com razão, e eu fico tentando achar razões minhas para tirar a razão delas. Enxergo o que eu queria ver onde ele não existe. Muitas vezes desprezo o que está na minha cara, mas não é bonito de ver, por covardia, desamor ou puro e tolo orgulho.

Eu canto sozinha e tenho vergonha de fazê-lo na frente dos outros. Eu tenho medo de perder o script ou de tropeçar na rua. Eu não cumprimento pessoas que até conheço, mas com quem não teria o que conversar, ou então que não me lembram boas coisas.

Eu fico mal humorada quando estou doente ou com fome. Eu julgo. Eu tento dar pinta de saber mais do que eu sei, às vezes, pra impressionar. Eu me culpo. Eu não tenho paciência com pessoas com fé na humanidade em tempo integral. Eu não consigo mais ver o Big Brother. Eu acho Clarice Lispector maníaca-depressiva e o Renato Russo um deprimido egocêntrico. Mas eu já li Clarice Lispector e tenho dois CDs do Renato Russo, que ainda ouço de vez em quando.

Eu não gosto de salada e não me esforço por gostar. Eu acho que o fato de gostar de ler e saber escrever é grande coisa. Eu não durmo cedo, e acordo tarde em dias de folga. Eu me faço de vítima. Eu viro a cara em dias ruins, ou se estou apressada, quando alguém me aborda na rua. Às vezes eu não tenho piedade. Às vezes eu me irrito com a cega e otimista piedade alheia.

Eu me apoio egocentricamente nas pessoas. Eu esqueço de perguntar como vai a família. Eu sou preguiçosa pra fazer faxina.

É assim. Eu é vil e errônea, já diria Fernando Pessoa.

(30.01.2007)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Pra não dizer que não falei de flores

Tenho em minha casa dois vasos de violetas. Chegaram em casa bonitos, como fotos de floricultura, cheios de botões e de cores. Durante umas duas estações, me brindaram com alegres tons de rosa e lilás sobre a mesa da sala. Depois disso, nada mais.

Vitaminas, terra nova, água, ar fresco não adiantavam. Com o tempo, fui me acostumando ao verde tímido das folhas e não mais esperei por floradas. Elas, as plantas, pareciam ter se conformado também, e a vida seguiu.

Vieram novos móveis. Vieram e se foram empregos, surpresas, planos, viagens e amigos. Vieram dois inquilinos à minha casa, que de morada solitária se transformou em nova modalidade de república, mais ou menos familiar. Atualizamos, reformulamos, guardamos, crescemos.

Um dia, uma nova hóspede verde obrigou a mudanças domésticas. Crescendo mais do que o esperado, requereu espaço próprio, janela própria e sol próprio. E no embalo, decidi também presentear as velhas moradoras vegetais da casa com um pouco mais de sol, de falas cúmplices e de nova terra.

Vi minha sala ser palco de uma revolução vegetal. Crescendo centímetros e centímetros a olhos vistos, a planta caloura chamou renovadas energias elementais ao ambiente. Suas colegas se juntaram ao coro. De repente, vi as antigas e tímidas folhinhas verdes, já anêmicas, se vestirem de um verde-musgo vigoroso. Todas as manhãs, elas se esticam para capturar aquele sol que não viam há anos. Voltaram ao viço da juventude.

E há alguns dias, a novidade: percebo, por entre as folhinhas, pequenos botões, inéditos há mais de cinco anos. Surpreendida, me esforço para me lembrar de que cor seriam aquelas flores ausentes há tanto tempo. Agora, dias depois, já vejo despontarem o rosa e o lilás de outrora. Em breve, acredito, acompanhados de (essas, sim) inéditas flores da nova inquilina, que provocou a revolução inicial. Estou curiosa para saber de que cor serão essas flores da boa fortuna, que acompanharão as minhas já experientes, e agora ainda mais belas, violetas.

E aprendo, mais uma vez, que não se pode, nunca, virar as costas ao sol. Peço desculpas às minhas antes anêmicas plantinhas, que souberam esperar o lampejo de consciência, já envergonhado, desta senhoria. E percebo que mesmo um começo de ano como este, conturbado para tantos, pode trazer gotas de poesia. Minha sala, banhada de sol, está inundada delas. :)

PS - Outra lição a tirar do episódio: sempre ouça - e agradeça - os conselhos de um especialista (no caso, Mariana, namorada de meu irmão e estudante de biologia, que sugeriu que, ao contrário do senso comum, um pouco de sol faz, sim, muito bem a violetas). :)

(18.01.2007)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Por um desvario

Se eu fosse fazer um pedido desvairado, leve e alegre, ia pedir para voar invisível até você, e aterrisar ao seu lado bem na hora em que uma graça te surpreendesse quieto, lendo ou ouvindo uma história, e seu rosto explodisse num sorriso inesperado e maroto. Aquele sorriso que me hipnotizou no primeiro segundo e que, pairando no ar da lembrança, me fez dormir uma noite bem-dormida em meio a tantas e até insuspeitas inquietações. Um sorriso que me persegue até hoje, que vem ao meu auxílio em momento de transtorno como o de agora, quando de repente a realidade bate na cara da gente e provoca falta de apetite, engulhos, enjôos. Nessa hora (e em outras mais felizes também) minha mente teimosa inventa de voar até você, e lembrar de novo do seu rosto se iluminando naquele sorriso maroto.

Queria ouvir de novo sua voz em contexto novo e inesperado, me trazendo a sensação de ter encontrado um tesouro num livro de histórias. Queria de novo andar pelas ruas te ouvindo rir do meu jeito de falar enquanto dirige, me olhando de vez em quando com a doçura e paciência de um velho conhecido. Queria de novo mirar a luz da tarde na parede do quarto, sozinha num dia claro, me sentindo tão estranhamente em casa como um náufrago que pressente velhas memórias invadirem sua mente, sem nome, sem cor, mas doídas de tão ternas, tão loucamente familiares.

Queria andar de novo por aquelas calçadas cheias de borboletas, entrar num bar e ter taquicardia ao ver a surpresa se avizinhando. Mas não estou lá, não estou aí, e isso faz, estranhamente, tudo mais belo. É o instante que passou, que se tornou eterno para que, em tardes cinzas como a de hoje, depois de olhos vermelhos e explosões de inquietação ao meu redor, eu possa me calar e me transportar de novo para esse lugar onde sua imagem se mistura a toda a paisagem como uma onda, como um presságio. Sei que no fundo é meu pensamento que voa, refazendo uma memória louca que não tive - mas que vem ao meu encontro sorrateira e independente de qualquer desejo meu. Como uma teimosia que encontra acolhida, como uma visão antes de acordar.

Por hora, isso é tudo. Por hora, é tudo de que preciso. E a paz, de novo, invade meu coração.

(08.01.2007)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Tamos aí


Ok, vamos lá então. Vamos começar a bagaça. Meio aos trancos e barrancos, é verdade, mas melhor do que muitos outros começos. Tenho coisas boas pra comemorar. A certeza de que, como disse a amiga Fê, eu me basto, basto para meus sonhos e, por conseguinte, estou - espero - muito mais capacitada para fazer os outros felizes também. A certeza de que tenho pessoas especialíssimas ao meu lado, que o destino me trouxe, pra trilhar muitos e novos caminhos. Ternuras antigas que me dizem, sempre e apesar de tudo, que o mundo vale a pena e que é uma bênção viver. E mesmo sabendo que no fundo, esse negócio de Ano-novo é, como diria Drummond, uma invenção genial para dividir nosso cansaço e esperança em fatias, é bom aproveitar a troca de calendários, agendas e datas nas folhas de cheque. Que a nova papelaria (sempre adorei papelaria!) nos inspire a renovar também a tela da mente. Focalizemos, então, nossos olhos para os velhos problemas e pensemos em novas soluções.

Refugio-me de possíveis ressacas em uma canção de outros tempos, que faz emergirem sonhos teimosos e acordes sempre mágicos para mim. Bom Ano a todos. E que, ao invés de termos boas surpresas, possamos ter o orgulho de dizer que fomos atrás de cada uma delas, buscando-as com vontade e amor.

Feliz Ano Novo!

Ring out the old
Bring in the new

A midnight wish

To share with you

Your lips are warm

My head is light

Were we in love

Before tonight?


I don't need a crowded ballroom

Everything I want is here

If you're with me

Next year will be

The perfect year


No need to hear
The music play
Your eyes say all
There is to say
The stars can fade
And they can shine
Long as your face
Is next to mine

It's new year's eve
And hopes are high
Dance one year in
Kiss one goodbye
Another chance,
Another start
So many dreams
To tease the heart

We don't need a crowded ballroom
Everything we need is here
So face to face
We shall embrace
The perfect year

(04.01.2007)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Conto de Natal

A menina morava numa cidade pequena, numa casa com quintal que ia até o outro lado do quarteirão. No quintal tinha de tudo: galinha, árvore de fruta, horta, cachorro. E pinheiros. Pinheiros que a mãe da menina cultivava todos os anos para vender na época de Natal. Quando chegava o começo de dezembro, ela mandava o marido separar algumas mangas fresquinhas da melhor árvore do quintal e colocar numa sacola. "Aquela senhora com os dois meninos vem hoje!".

O carro encostava em frente à casa de quintal grande, num bairro afastado da cidade, e dele saía a senhora com os dois meninos. Vinha também o irmão dela, alto e forte, para levar o pinheiro. Às vezes vinham de kombi, a kombi da empresa de gás do marido da senhora, que nem era tão senhora assim. E os dois meninos desciam junto, na carreira, e corriam para o fundo do quintal. Enquanto a senhora que morava no centro da cidade escolhia a árvore mais bonita, os meninos subiam nas árvores, gritando de alegria, e comiam todas as frutas que podiam. A senhora e a mãe da menina trocavam dois dedos de prosa e a dona da casa oferecia a sacola, cheia de mangas fresquinhas. Presente cheiroso de Natal. O irmão da senhora então pegava nas costas o pinheiro e saía reclamando, "isso pinica, pô". Os meninos vinham atrás, rindo e brincando, com cheiro de fruta.

A menina via e já esperava a mesma cena todos os anos. Tempos depois, na cidade pequena, precisou mudar de escola para seguir a vida. Ali, se encantou com os olhos verdes de um rapaz. Um dia, depois de trocas mútuas de expectativas, saíram. No final da noite, ele a deixava em casa, como todo bom rapaz de cidade pequena deve fazer. E, ao encostar no meio-fio, fez o comentário: "nossa, é a casa dos pinheiros".

E a menina, num segundo, olhou e reconheceu naqueles olhos verdes as mesmas risadas do menino que invadia sua casa todo dezembro. E viu que já conhecia, desde sempre, seu presente de Natal.

(15.12.2006)