Estou 6 kg mais magra.
Ganhei de volta uma calça que ia dar embora, porque não servia em mim.
Estou cercada de amigos e pessoas que amo. E que me fazem rir!
Tenho liberdade de escolher para onde ir, e sei como chegar até lá.
Importo-me com o que os outros pensam e sentem. E não tenho vergonha de dizer isso a eles.
Sou correspondida em meus amores mais perenes. Amigos, família, eu mesma.
Então, chegou o fim definitivo da insanidade.
Perdi o medo do pé na bunda. De levar e de dar, quando preciso.
Não
vou mais sustentar situações sem lógica. Ainda que seja a lógica do
desejo. O desejo broxa quando faltam a lógica da ética, do respeito, do
afeto.
E não estou nem um pouco preocupada. Pela primeira vez. É
leve o fato de estar feliz, a sós com a pessoa que mais gosta de mim no
mundo: EU.
Dane-se o medo de desperdiçar chances imaginárias. Foda-se a crise dos 30.
Falta de senso, eu tenho preguiça de você.
Se ser adulto é saber dizer adeus, bem-vinda, maturidade.
Eu te amo, eu mesma. Vamos lá fora, que o sol está brilhando.
(23.10.2007)
terça-feira, 23 de outubro de 2007
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
É crise, querida!
Diz o sábio: no meio do redemoinho existe uma borboleta. Uma
borboleta bela e colorida, que voa calmamente, rodeada pelo mundo que
gira em insano movimento. Se você encontrar a borboleta, encontrará o
segredo da vida.
Não
achei que fosse chegar a escrever um post sobre esse assunto. Para mim,
alimentar um conceito como "a crise dos 30" já é, em si, uma crise.
Cansei de ver outras pessoas - especialmente mulheres - chegarem a essa
idade e sofrerem com a famigerada, a loura do banheiro que espreita o
balzaquiano momento. Tudo bem, eu também tinha medo, quando dos meus 20 e
poucos anos, de chegar a essa idade. Achava que, quando alcançasse o
limiar dos "inta", já teria que ter umas tantas coisas realizadas na
vida, suficientes para me tornar uma "adulta" respeitável, sem terrores
ou frustrações. Mas, com o passar dos últimos anos, fui achando que esse
negócio era balela. Encanada por natureza, crises já tive muitas. Aos
10, aos 15, aos 20 e aos 25. Grande parte, se vê depois, formada em seus
90% por motivos imaginários ou de pouca importância real. Cada uma
delas, superada de forma um pouco melhor do que a anterior. Com os 30
vai acontecer o mesmo, pensava. Nada de "ó que saudade dos velhos
tempos", nada de "não fiz o que queria até agora".
Mas
é claro, somos humanos e ninguém está livre de uma ou outra encanação
de vez em quando. Especialmente quando um feriado programado não dá
certo, quando a gente se depara com alguma injustiça (nossa ou de
outros), quando a sensação de "não tem jeito" nos invade. Quando a gente
vê que o tempo passou e a gente não percebeu. Pode ser alguém
inesperado se casando, pode ser uma foto de pessoas queridas que não
vemos há tempos, pode ser uma roupa rota que a gente comprou "ontem
mesmo". Qualquer coisa que nos traga a constatação: o tempo passou.
Continua passando, inexorável. E nessas horas a gente acaba fazendo
nossos mini-balanços.
Os amigos em
volta acompanham. Aqueles que também andam se sentindo acuados pelos
ponteiros do relógio. "Eu sou muito chato?", pergunta um deles,
companheiro do papo online no feriado. Não, querido, nada disso. É só um dia um
tanto vazio, em que gastamos nosso tempo revisando pensamentos. Logo
passa, não se preocupe.
A
gente conversa com os amigos enquanto procura também aquietar as
próprias indagações, as crises de choro que nem a gente entende.
Estranho sentimento esse, de saudade misturada à certeza de ciclo
encerrado. De que se quer bem a pessoas e coisas e, ao mesmo tempo, é
inevitável seguir em frente. Nada é poupado das dúvidas: será que estou
com a pessoa certa? Ou por que raios não encontro a pessoa certa? Será
que estou na profissão certa? Será que o que eu faço realmente contribui
para a sociedade? Será que afivelo as malas e caio na estrada? Será que
continuo economizando ad eternum para contrair outras dívidas eternas? Onde está a borboleta no meu redemoinho?
Acho
que não existe idade para encontrá-la, essa é a verdade. E esses
momentos de crise, a meu ver, têm a função importante de nos empurrar à
limpeza, àquela peneirada que precisamos fazer de tempos em tempos na
vida, dedicindo o que fica e o que tem que ir embora. Acreditar no
contrário, que se tem que estar assim ou assado nesta ou naquela idade, é
uma das maiores prisões que inventamos para nós mesmos. Assim como os
"30" me atemorizavam uns poucos anos atrás, vejo exemplos e mais
exemplos de pessoas que chegam aos seus 40, 50, 60, 90 plenas de alegria
e leveza no coração, mostrando a verdadeira sabedoria de passar pela
vida.
Todo
o resto - o pesar, o arrependimento, o que nos aprisiona em vez de nos
fazer crescer - precisa ser mais psicológico do que real. Quem me
ensinou isso foram as crises anteriores. O mundo é grande demais, assim
como nós somos grandes demais, para perder tempo com problemas
imaginários. Se algo não deu certo até aqui, toca mudar. Se deu certo e a
gente sente saudades, que bom, quer dizer que empregou-se bem o tempo.
Se falta alguma coisa que a gente já queria ter conquistado, bora
buscar. Se os bons tempos não voltam mais, outros virão, ainda em
branco, esperando que, com o aprendizado, os tornemos bons também.
Difícil
até concluir algo, no meio de tantas variáveis. Mas agradeço pelos
tantos caminhos que se abrem no horizonte, uma vez mais. Que a vida,
essa deusa em mutação, nos leve aos próximos ciclos... e que os próximos
feriados sejam mais belos e interessantes. :)
(12.10.2007)
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Ser feliz ou ter razão?
A pergunta tão crucial me foi apresentada – e celebrizada – pela
Paulinha, nos idos e bons tempos de Santíssimas ainda ativas. Já a ouvi
também em outros lugares, por outras pessoas. E de novo, há cerca de dez
dias, ela se apresentou para mim em visita a pessoas sábias e amigas.
A verdade é que, nos últimos tempos, essa pergunta não tem me abandonado. Desde uma grande sacudida no final do ano passado, e passando por todas as situações-limite que tem se apresentado a mim, uma após a outra, nos últimos doze meses. Vem tingida pelos ânimos do momento: às vezes filosófica, às vezes libertadora, às vezes dolorida. E de novo eu me vejo na impossibilidade de responder a essa simples pergunta, que resume em si algumas das grandes angústias da humanidade.
Difícil constatar que o que nos faz felizes e o que é “certo” podem, muitas vezes, estar em campos opostos. A escolha entre a consciência e a vontade louca de voar, o pasto de todo dia ou a liberdade de correr mundo. Optar entre se entregar a um sonho, assumir os riscos de uma aposta puramente emocional ou viver o cotidiano arrumadinho, previsível, com suas obrigações e suas plantas na janela.
Afinal, que perguntinha perniciosa, essa. “Ter razão” pode significar também uma razão cega, aquela que nos torna irredutíveis para a razão dos outros. Uma razão que, muitas vezes, nem é nossa, mas baseada na visão de outros sobre que devemos ou não fazer.
Mas pensando bem, isso é ter razão? E ser feliz, o que é? Afinal, ser feliz compreende também cultivar valores, ideais que nos são importantes, que muitas vezes são responsáveis pelo melhor de nós. Ter razão, para mim, significa principalmente ter razão diante do que a gente é – afinal, lá existe razão absoluta? –, diante do que pretendemos para a nossa vida, diante de nossa essência mais profunda. Aquela que nunca irá nos trair, que nos levará a caminhos autênticos, talvez não tão fáceis, mas certamente coerentes com o que precisa nossa alma, e com o que ela tem também a oferecer de melhor aos outros. Sim, porque não se pode ser verdadeiro com o outro apresentando a ele uma máscara. Essa deveria ser a verdadeira ética interpessoal.
Talvez a verdadeira razão, essa razão mais escondida, não seja incompatível com a possibilidade de ser feliz. Talvez seja, mesmo, imprescindível.
Vai ver, por isso é tão difícil ser feliz: depois de anos acreditando que se é uma planta na janela do apartamento, a gente se apavora com a possibilidade de ar fresco. Não sabe o que fazer diante de um horizonte aberto. Não consegue mais encontrar, dentro da gente, nossa verdadeira razão. O Sol, lá fora, continua sendo um só – mas nós, acostumados a dividi-lo em quadradinhos, não conseguimos mais enxergar o azul do céu que ele pinta.
Talvez a missão seja essa: juntar a felicidade à verdadeira razão, nesse labirinto que somos, moldado por tantas mãos ao longo da vida.
(03.10.2007)
A verdade é que, nos últimos tempos, essa pergunta não tem me abandonado. Desde uma grande sacudida no final do ano passado, e passando por todas as situações-limite que tem se apresentado a mim, uma após a outra, nos últimos doze meses. Vem tingida pelos ânimos do momento: às vezes filosófica, às vezes libertadora, às vezes dolorida. E de novo eu me vejo na impossibilidade de responder a essa simples pergunta, que resume em si algumas das grandes angústias da humanidade.
Difícil constatar que o que nos faz felizes e o que é “certo” podem, muitas vezes, estar em campos opostos. A escolha entre a consciência e a vontade louca de voar, o pasto de todo dia ou a liberdade de correr mundo. Optar entre se entregar a um sonho, assumir os riscos de uma aposta puramente emocional ou viver o cotidiano arrumadinho, previsível, com suas obrigações e suas plantas na janela.
Afinal, que perguntinha perniciosa, essa. “Ter razão” pode significar também uma razão cega, aquela que nos torna irredutíveis para a razão dos outros. Uma razão que, muitas vezes, nem é nossa, mas baseada na visão de outros sobre que devemos ou não fazer.
Mas pensando bem, isso é ter razão? E ser feliz, o que é? Afinal, ser feliz compreende também cultivar valores, ideais que nos são importantes, que muitas vezes são responsáveis pelo melhor de nós. Ter razão, para mim, significa principalmente ter razão diante do que a gente é – afinal, lá existe razão absoluta? –, diante do que pretendemos para a nossa vida, diante de nossa essência mais profunda. Aquela que nunca irá nos trair, que nos levará a caminhos autênticos, talvez não tão fáceis, mas certamente coerentes com o que precisa nossa alma, e com o que ela tem também a oferecer de melhor aos outros. Sim, porque não se pode ser verdadeiro com o outro apresentando a ele uma máscara. Essa deveria ser a verdadeira ética interpessoal.
Talvez a verdadeira razão, essa razão mais escondida, não seja incompatível com a possibilidade de ser feliz. Talvez seja, mesmo, imprescindível.
Vai ver, por isso é tão difícil ser feliz: depois de anos acreditando que se é uma planta na janela do apartamento, a gente se apavora com a possibilidade de ar fresco. Não sabe o que fazer diante de um horizonte aberto. Não consegue mais encontrar, dentro da gente, nossa verdadeira razão. O Sol, lá fora, continua sendo um só – mas nós, acostumados a dividi-lo em quadradinhos, não conseguimos mais enxergar o azul do céu que ele pinta.
Talvez a missão seja essa: juntar a felicidade à verdadeira razão, nesse labirinto que somos, moldado por tantas mãos ao longo da vida.
(03.10.2007)
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Lições da fisioterapia
Quando comecei os exercícios, achei que meu maior trabalho seria o de me equilibrar novamente sobre minha perna sem sentir dores. Imaginei que meus ossos e músculos se ressentiriam, depois do longo período de paralisação. Realmente, eles estranharam a demanda de esforços. Mas, depois dos primeiros dias, as dores foram diminuindo aos poucos, tornando-se apenas avisos preventivos de quando se avança o sinal do caminhar. Na ânsia da cura, mesmo as dores dos ossos se tornaram cooperativas.
Mas, no meio do caminho de volta, outra parte do corpo resolveu dar o alarme. Meu joelho se ressente loucamente do esforço que lhe é exigido. Inchado, acorda-me no meio da noite, reclamando. Endurece, se negando a trabalhar. A pele magoada ainda não sente frio ou calor. É meu maior desafio, minha maior fonte de esforço e suspiros, na tentativa de dobrar a perna sem dores.
Intrigada, pergunto à fisioterapeuta o que isso significa, uma vez que o joelho, teoricamente, saíra ileso da trombada que me derrubou há mais de mês. Se até os ossos já se readaptam a suas tarefas, por que esse ressentimento? A resposta: no impacto, tudo ali dentro, base da articulação, se desestruturou. Ainda que nenhum ligamento ou osso tenha sido rompido, agora ele precisa achar sua posição de novo para voltar a trabalhar direito. Isso pode demorar. E pode doer.
É assim mesmo: nem sempre aquilo que se rompeu, e que merece nossos maiores cuidados, é o que causa maior preocupação. Com o tempo, os verdadeiros motivos de alarme podem surgir sorrateiros, em áreas periféricas - e tão estratégicas quanto insuspeitas.
19.09.2007
Mas, no meio do caminho de volta, outra parte do corpo resolveu dar o alarme. Meu joelho se ressente loucamente do esforço que lhe é exigido. Inchado, acorda-me no meio da noite, reclamando. Endurece, se negando a trabalhar. A pele magoada ainda não sente frio ou calor. É meu maior desafio, minha maior fonte de esforço e suspiros, na tentativa de dobrar a perna sem dores.
Intrigada, pergunto à fisioterapeuta o que isso significa, uma vez que o joelho, teoricamente, saíra ileso da trombada que me derrubou há mais de mês. Se até os ossos já se readaptam a suas tarefas, por que esse ressentimento? A resposta: no impacto, tudo ali dentro, base da articulação, se desestruturou. Ainda que nenhum ligamento ou osso tenha sido rompido, agora ele precisa achar sua posição de novo para voltar a trabalhar direito. Isso pode demorar. E pode doer.
É assim mesmo: nem sempre aquilo que se rompeu, e que merece nossos maiores cuidados, é o que causa maior preocupação. Com o tempo, os verdadeiros motivos de alarme podem surgir sorrateiros, em áreas periféricas - e tão estratégicas quanto insuspeitas.
19.09.2007
domingo, 16 de setembro de 2007
Desce o pano
Mãe, estou aqui.
Estou aqui de pés descalços, como convém.
Vim de alma lavada, na areia, na beira do mar.
Meus pés descalços estão em todos os lugares, na praia, no corredor de casa. Em lugares por onde já passei. E estão também no assoalho frio do banheiro, que visitei esta manhã.
Esta manhã, Mãe, enquanto o mundo dormia, me levantei e fui com meus pés descalços até lá.
Senti o chão frio e isso que me fez bem. Há tempos não sentia o frio com meus pés.
E depois da noite difícil, vi um pequeno pedaço do caminho indo embora.
Na manhã do chão frio, olhei meu rosto no espelho.
Depois, abri a torneira e lavei meus machucados todos. Lavei o rosto, o corpo. Deixei escorrer da alma qualquer coisa que não fizesse mais sentido. Todos os enganos, tudo que não prestava mais. Tudo que eu não sou, tudo em que eu não acredito.
Depois, ainda tonta, voltei para a cama. A cabeça doía. Mas estava mais leve.
Mas eu sabia que, quando o dia começasse, o mundo seria outro. E o caminho, ainda que difícil, seria mais claro.
Aprender pela dor é difícil, Mãe.
Mas quando se aprende, até as dores podem se transformar em bênçãos. Que marcam, mas que livram as mãos. E os pés também, prontos para voltar a caminhar.
(16.07.2007)
Estou aqui de pés descalços, como convém.
Vim de alma lavada, na areia, na beira do mar.
Meus pés descalços estão em todos os lugares, na praia, no corredor de casa. Em lugares por onde já passei. E estão também no assoalho frio do banheiro, que visitei esta manhã.
Esta manhã, Mãe, enquanto o mundo dormia, me levantei e fui com meus pés descalços até lá.
Senti o chão frio e isso que me fez bem. Há tempos não sentia o frio com meus pés.
E depois da noite difícil, vi um pequeno pedaço do caminho indo embora.
Na manhã do chão frio, olhei meu rosto no espelho.
Depois, abri a torneira e lavei meus machucados todos. Lavei o rosto, o corpo. Deixei escorrer da alma qualquer coisa que não fizesse mais sentido. Todos os enganos, tudo que não prestava mais. Tudo que eu não sou, tudo em que eu não acredito.
Depois, ainda tonta, voltei para a cama. A cabeça doía. Mas estava mais leve.
Mas eu sabia que, quando o dia começasse, o mundo seria outro. E o caminho, ainda que difícil, seria mais claro.
Aprender pela dor é difícil, Mãe.
Mas quando se aprende, até as dores podem se transformar em bênçãos. Que marcam, mas que livram as mãos. E os pés também, prontos para voltar a caminhar.
(16.07.2007)
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Lembrete permanente
É bom ter valores. E não esquecer deles.
É bom se sentir bem com o que se diz e com o que se pensa.
É saudável se sentir coerente com a gente mesma.
É bom ter paz de espírito.
É bom ter coragem de buscar coisas que façam bem pra gente.
É saudável não levar desaforo pra casa, de vez em quando.
É bom argumentar quando a gente discorda.
É bom lembrar que nem sempre todos os ovos estão na mesma cesta.
É bom distribuí-los em várias cestas. Amigos, trabalho, amor. E distribuir bem, pra que não se perca todos de uma vez se alguma delas cair no chão.
É bom ter amigos bem escolhidos. E lembrar sempre do por quê a gente os escolheu.
É bom lembrar que não há feridas que não cicatrizem, se a gente estiver realmente a fim de se curar.
É bom confiar nas pessoas. E não há nada, nada mesmo, que pague ou substitua a confiança do sentimento.
É importante saber esperar. É válido tirar as provas.
É importante saber a hora e a precisão de caminhar.
E é bom voltar para casa. A casa da alma da gente, onde a gente mesma mora.
E ver que ninguém está sozinha consigo mesma, se o recheio da gente mesma vale a pena.
(13.09.2007)
É bom se sentir bem com o que se diz e com o que se pensa.
É saudável se sentir coerente com a gente mesma.
É bom ter paz de espírito.
É bom ter coragem de buscar coisas que façam bem pra gente.
É saudável não levar desaforo pra casa, de vez em quando.
É bom argumentar quando a gente discorda.
É bom lembrar que nem sempre todos os ovos estão na mesma cesta.
É bom distribuí-los em várias cestas. Amigos, trabalho, amor. E distribuir bem, pra que não se perca todos de uma vez se alguma delas cair no chão.
É bom ter amigos bem escolhidos. E lembrar sempre do por quê a gente os escolheu.
É bom lembrar que não há feridas que não cicatrizem, se a gente estiver realmente a fim de se curar.
É bom confiar nas pessoas. E não há nada, nada mesmo, que pague ou substitua a confiança do sentimento.
É importante saber esperar. É válido tirar as provas.
É importante saber a hora e a precisão de caminhar.
E é bom voltar para casa. A casa da alma da gente, onde a gente mesma mora.
E ver que ninguém está sozinha consigo mesma, se o recheio da gente mesma vale a pena.
(13.09.2007)
domingo, 9 de setembro de 2007
Descontrol... pero cumplidora
Tem horas em que a gente se sente pequena. Parece que todo nosso
aprendizado, todas as coisas que a gente passou anos tentando colocar na
cabeça para ser alguém melhor, mais amadurecido, mais centrado, somem
como por encanto. A gente volta a ter 5 anos de idade - ou 15, o que
pode ser ainda pior - e todos os medos, inseguranças, carências invadem
nossa alma de novo, com força total. A gente deixa de ver tudo de bom
que está acontecendo à volta, as pessoas que estão do nosso lado, e as
voltas por cima que já deu em relação a tantas coisas. Entra num redeominho que
faz um scandisc não-desejado no nosso cérebro, e por um tempo a
gente deixa de ser quem é, de fazer o que estava acostumada, de sonhar o
que costumava sonhar. Manda a paciência às favas, dane-se que podia ser
pior, eu sei é que podia ser melhor e por algum motivo eu não consigo
chegar nesse melhor, por mais que eu nade, por mais que eu lute, a gente
pensa.
Daí, no meio da tempestade, uma palavra, uma imagem, uma foto, um afago faz a gente lembrar dos tempos de paz que a gente abandonou. E por um momento, a gente percebe que tudo aquilo tem salvação: que há coisas maiores e mais belas esperando a gente. Mãos pra nos puxar na tempestade, nos sentar no canto do ringue e jogar um pouco de água fresca na nossa testa.
E a gente se sente aliviada por saber que há coisas que nunca mudam, gente querida que nos ama apesar e por tudo. A gente se sente como a criança que ganhou colo, que foi solta pra brincar na grama. E de repente, a gente quer a vida nossa, nossos sonhos todos de volta. Dá vontade de chorar. Mas a gente sabe que, depois que toda a chuva passar, não importem os efeitos da correnteza, sempre vai ter um lugar onde poderá respirar ar fresco. Sempre vai ter alguém te esperando pra te ajudar a dar outro passo.
Que bom ter esses presentes. Que bom poder lembrar, e saber que se pode renascer. :)
(09.09.2007)
Daí, no meio da tempestade, uma palavra, uma imagem, uma foto, um afago faz a gente lembrar dos tempos de paz que a gente abandonou. E por um momento, a gente percebe que tudo aquilo tem salvação: que há coisas maiores e mais belas esperando a gente. Mãos pra nos puxar na tempestade, nos sentar no canto do ringue e jogar um pouco de água fresca na nossa testa.
E a gente se sente aliviada por saber que há coisas que nunca mudam, gente querida que nos ama apesar e por tudo. A gente se sente como a criança que ganhou colo, que foi solta pra brincar na grama. E de repente, a gente quer a vida nossa, nossos sonhos todos de volta. Dá vontade de chorar. Mas a gente sabe que, depois que toda a chuva passar, não importem os efeitos da correnteza, sempre vai ter um lugar onde poderá respirar ar fresco. Sempre vai ter alguém te esperando pra te ajudar a dar outro passo.
Que bom ter esses presentes. Que bom poder lembrar, e saber que se pode renascer. :)
(09.09.2007)
sábado, 8 de setembro de 2007
Setembros
Depois dos tempos de adolescência, dei pra pegar birra desse mês, sem
saber direito por quê. Sentia-me mal, numa espécie de limbo. O meio do
ano já pelas costas, com suas festas, feriados, expectativas. O final do
ano ainda por vir, com suas conclusões triunfais, balanços e
concretizações. Chances reduzidas de pôr em prática o que ainda não
tinha decolado. Ainda cedo para festejar qualquer coisa. Angústia de
estar em lugar nenhum.
Foi assim em todos os últimos anos. Tentei vários recursos – nem férias tiradas no período ajudavam a reduzir a inquietação. Ano passado, porém, os preparativos da viagem, se não curaram a paranóia, pelo menos fizeram com que tudo passasse mais rápido. Na volta, já em finais de outubro, outra sensação me invadiria. Uma inquietação ainda maior, de não achar lugar no espaço, dessa vez. Olhava a decoração já montada para o Natal, que se avizinhava, e me sentia uma estranha. Para mim, depois de tantas reviravoltas na alma, um novo ciclo apenas começava. Que ares de final de festa eram aqueles?
E veio um novo ano. Cheio de surpresas, boas que se tornaram não tão pródigas, ruins que se tornaram um tanto melhores. E setembro me apareceu agora de um jeito acidentado, se aproximando sem que eu me apercebesse dele. Entro no mês com nova expectativa: para quem está afastada de tudo – ou quase tudo – ele vem com ares de volta para casa, uma volta vagarosa e tenaz.
A alma da gente é estranha: precedendo uma grande alegria, ano passado, meu setembro foi ainda pesado. O final do ano, sob a sombra da felicidade distante, quase um estranho em visita. Mas nesse ano, depois de tantos terríveis repentes, setembro chega com ar mais amável. E, tenho certeza, meu final de ano virá com jeito bem mais feliz.
(08.09.2007)
Foi assim em todos os últimos anos. Tentei vários recursos – nem férias tiradas no período ajudavam a reduzir a inquietação. Ano passado, porém, os preparativos da viagem, se não curaram a paranóia, pelo menos fizeram com que tudo passasse mais rápido. Na volta, já em finais de outubro, outra sensação me invadiria. Uma inquietação ainda maior, de não achar lugar no espaço, dessa vez. Olhava a decoração já montada para o Natal, que se avizinhava, e me sentia uma estranha. Para mim, depois de tantas reviravoltas na alma, um novo ciclo apenas começava. Que ares de final de festa eram aqueles?
E veio um novo ano. Cheio de surpresas, boas que se tornaram não tão pródigas, ruins que se tornaram um tanto melhores. E setembro me apareceu agora de um jeito acidentado, se aproximando sem que eu me apercebesse dele. Entro no mês com nova expectativa: para quem está afastada de tudo – ou quase tudo – ele vem com ares de volta para casa, uma volta vagarosa e tenaz.
A alma da gente é estranha: precedendo uma grande alegria, ano passado, meu setembro foi ainda pesado. O final do ano, sob a sombra da felicidade distante, quase um estranho em visita. Mas nesse ano, depois de tantos terríveis repentes, setembro chega com ar mais amável. E, tenho certeza, meu final de ano virá com jeito bem mais feliz.
(08.09.2007)
domingo, 26 de agosto de 2007
Explosão
O espaço é belo. Quando a gente está voando, fica sem fôlego. Mas não de angústia. É a euforia de estar fora do chão, de explorar mundos novos. De ver nossa alma crescer, em êxtase, tão rápida e forte que não é possível registrar com pensamentos. A sinfonia de estrelas ao redor colore os olhos, em contraste com o azul quase negro, profundo e belo. Maravilha de se sentir ilimitado. De estar em um lugar onde tudo é claro, limpo e verdadeiro. Ali, nada pode nos atingir. Ao redor, só a imensidão. E a alma também imensa.
Mas o espaço também é lugar onde só se pode ir com roupa especial. Pois, para além da euforia, não há ar. A natureza do espaço é ser vácuo. No vácuo circula o belo, o surpreendente e também o mortal. Para conhecer o espaço, é mister o lastro. Lastro que nos puxa ao chão quando estamos soltos na amplidão, quando perdemos o senso e queremos nos fundir com o vazio, com a maravilha de estar livre, de ser só alegria. Lastro que nos impede de morrer, fora da natureza de animais bípedes que somos. Lastro que nos faz entrar na cápsula e voltar à terra, ao ar que nos nutre, discreto, sem que vejamos.
A cápsula, ao entrar na atmosfera, se transforma em fogo. Hora dramática para o astronauta: ele vê sua amplidão queimando, os sonhos feitos em gás incandescente. Dando espetáculo no céu, se consumindo. Morrendo.
Ele volta à Terra. Volta para o ar, a comida de todos os dias, suas raízes que o fazem viver. Ele reaprende a apreciar a dança lenta da natureza terrestre, do crescimento a que pertence.
Mas sua alma é outra. Ele agora vive com os olhos voltados para o céu. Lá onde está o sonho, a amplidão. Dividido entre as raízes que o nutrem e as asas que sonha ter.
No meio do caminho, a lembrança da explosão de luz. De seus sonhos, que tiveram na claridade a hora de maior verdade e beleza. Quando estavam no limiar do céu, sua casa. Quando se despediram.
"Uma astronave decola mediante uma explosão (fundamental), orbita em volta da Terra (pela Lei), executa todo o seu trabalho (escolha) e depois tem que retornar (missão). Segundo relatos, a reentrada na Terra é a experiência mais terrível para um astronauta, porque literalmente ele fica envolto em uma cápsula de fogo.
Se você decolou, vai ter que reentrar..." (de um amigo que sabe das coisas)
(Publicado originalmente em 26.08.2007)
Mas o espaço também é lugar onde só se pode ir com roupa especial. Pois, para além da euforia, não há ar. A natureza do espaço é ser vácuo. No vácuo circula o belo, o surpreendente e também o mortal. Para conhecer o espaço, é mister o lastro. Lastro que nos puxa ao chão quando estamos soltos na amplidão, quando perdemos o senso e queremos nos fundir com o vazio, com a maravilha de estar livre, de ser só alegria. Lastro que nos impede de morrer, fora da natureza de animais bípedes que somos. Lastro que nos faz entrar na cápsula e voltar à terra, ao ar que nos nutre, discreto, sem que vejamos.
A cápsula, ao entrar na atmosfera, se transforma em fogo. Hora dramática para o astronauta: ele vê sua amplidão queimando, os sonhos feitos em gás incandescente. Dando espetáculo no céu, se consumindo. Morrendo.
Ele volta à Terra. Volta para o ar, a comida de todos os dias, suas raízes que o fazem viver. Ele reaprende a apreciar a dança lenta da natureza terrestre, do crescimento a que pertence.
Mas sua alma é outra. Ele agora vive com os olhos voltados para o céu. Lá onde está o sonho, a amplidão. Dividido entre as raízes que o nutrem e as asas que sonha ter.
No meio do caminho, a lembrança da explosão de luz. De seus sonhos, que tiveram na claridade a hora de maior verdade e beleza. Quando estavam no limiar do céu, sua casa. Quando se despediram.
"Uma astronave decola mediante uma explosão (fundamental), orbita em volta da Terra (pela Lei), executa todo o seu trabalho (escolha) e depois tem que retornar (missão). Segundo relatos, a reentrada na Terra é a experiência mais terrível para um astronauta, porque literalmente ele fica envolto em uma cápsula de fogo.
Se você decolou, vai ter que reentrar..." (de um amigo que sabe das coisas)
(Publicado originalmente em 26.08.2007)
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Fora do tempo
Às nove horas e quinze minutos do dia 7 de agosto, terça-feira, o acaso me pegou desprevenida. Eu acabava de ganhar a rua, emergindo do metrô, mas ainda imersa em preocupações. Três, pelo menos, que me roubavam a paz naqueles dias. Misturando-se a elas, iam pensamentos mundanos: o happy-hour do dia seguinte, a blusa que eu usava naquele dia pela segunda vez, os cartazes do curso de inglês na parede, o bilhete único ainda descarregado, os presentes para o final-de-semana. E a visão do ônibus que eu deveria pegar, parado na esquina, esperando o sinal abrir. Separando-me do ponto onde ele passaria, uns vinte metros e a Rua Augusta.
Decido ganhar tempo. O tempo é precioso nesta manhã. Posiciono-me entre as pessoas que esperam para atravessar a Augusta. Tento ficar entre as primeiras da fila. O trânsito é pesado. Quando os carros param de subir a rua, dou um passo. Viro meu pescoço para olhar para o outro lado. Vejo algo se avolumando a milímetros. Não tenho tempo de registrar o que é. Ouço uma pancada surda. Ouço também gritos atrás de mim.
Algumas pessoas me ajudam a deitar no chão. Uma moça segura minha mão, fazendo perguntas para me manter consciente. Um rapaz grita para que a moto pare. Um bombeiro toma nota do meu nome, do telefone da minha família. Olho para cima e vejo, de baixo, os ônibus e carros me contornando, tentando ganhar a Paulista que está logo ao meu lado. Uma pequena multidão ao redor, e os prédios se avolumando sobre mim. O céu é claro.
Foi um segundo. Minha mente ainda tenta formular alguma pergunta. Mas as preocupações de quinze minutos atrás, dentro do vagão do metrô, parecem pequenas. Ao ver o bombeiro rasgando minha calça, para dar espaço à perna, de repente me questiono se voltarei a andar. Tento guardar a imagem do céu e da Paulista na cabeça, como se fosse possível congelar o instante, congelar a vida para recomeçar depois do intervalo, do ponto em que ela parou, antes do sinal, do ônibus na esquina. De fechar os olhos e abri-los do outro lado da rua, entrando no ônibus, descendo a Brigadeiro, chegando no trabalho, abrindo o computador.
Inaugurei o plantão do HC naquele dia. Isso deve ser um sinal otimista para o hospital, considerando que já são quase dez da manhã, comento com o Bombeiro que me tira do Resgate. Ele não parece concordar. Talvez pela quantidade de pessoas, já àquela hora, sendo examinadas (estariam lá desde o dia anterior?). Deitada, olhando para o teto e sendo revirada por meia dúzia de residentes, não vejo nada. Mas ouço alguns sons que demonstram pessoas lutando, lutando bem mais do que eu. Mais tarde, Fê e André me confirmariam, com olhos apreensivos, esse cenário.
Permaneço no Pronto Socorro das 10 da manhã até as 4 da tarde. A sede, a fome e a febre vão se tornando imperceptíveis. E aprendo, em instantes, a confiar como nunca na vida. Sou examinada em partes do corpo que eu nem sabia que existiam. Das minhas roupas, só sobram as botas.
Dali, caminho óbvio, a ortopedia. Novos exames. Dor incomensurável. E o medo da operação começa a se transformar em reza, para que chegue logo, para que tudo aquilo acabe. Acaba por volta das 22h, quando vou ao quarto dormir, pernas sedadas, novos elementos no corpo. Cada parte do nosso corpo conta uma história.
Foi uma noite tranqüila, a primeira noite fora do tempo. A ela, se segue agora um desfile interminável de horas suspensas, de horas da verdade. De reaprender a usar o corpo. De não achar posição na cama. De ver o tempo passar e se indagar sobre o mundo lá fora. De lembrar viagens, passeios e pensar na maravilha de se locomover, de ganhar o mundo. De contar os dias para adivinhar quando a vida voltará ao normal.
Mas também de ver o sol pela janela, agradecer por ele aparecer na minha cama de manhã. De admirar a minha perna direita, brava guerreira trabalhando por duas, prestando sustentação inestimável. De observar o milagre que é um membro nosso perfeito, feito para nos fazer viver. De ver e festejar os centímetros a menos de inchaço na perna esquerda, de tremer com os pontos do machucado. De criar coragem para dobrar o joelho em 90 graus na fisioterapia, de fazer trabalhar o pé preguiçoso e assustado. De dizer “vai, você é capaz”. De me sentir feliz porque, afinal, estou aqui, podendo falar sobre isso depois daquele segundo em que não vi nada. Estou sentada em frente ao computador, escrevendo esse texto e chorando pela primeira vez desde que tudo aconteceu. E que no futuro vou lembrar disso como um tempo de pausa fora do tempo.
Na última semana, direta ou indiretamente, tive contato com muitos tipos de dramas humanos. O fato de ter um bom convênio médico me garantiu atendimento imediato no melhor hospital do país. Poupou-me de colocar pregos nos joelhos e de ficar imóvel numa cama por pelo menos três meses. Impediu que eu ficasse esperando num corredor de hospital por atendimento, que eu pudesse ter um quarto só para mim, que minha família e amigos estivessem ao meu lado – e que, mesmo assim, eu rezasse para que cada hora passasse rápido e eu pudesse ir para casa. Tive uma equipe de especialistas a meu dispor e enfermeiras disponíveis e cuidadosas, além de um médico atencioso e competente.
Todo o contrário, todo o desengano, a miséria e as exigências de provas sobre-humanas de paciência, tenho visto desfilar diante dos meus olhos. Em algum relato, em alguma imagem, em alguma história. De gente que teve a vida modificada para sempre. De pessoas que não tiveram ajuda, atenção ou a chance de atendimento adequado. E quando a impaciência me invade, quando a dor dos curativos vem de novo, quando acho que estou perdendo muito, tento guardar essas impressões para usá-las no futuro – na compreensão de tantos e piores dramas que insistimos em não ver, preocupados com nossos problemas soberanos.
Eu tenho um corpo perfeito que está se recuperando bem, graças à possibilidade que sempre tive de me cuidar, e da presença de uma família abençoada que me ama. Tenho amigos que estão ao meu lado, me dando muito mais do que eu poderei um dia retribuir. Tenho uma vida que está sob minha responsabilidade, sobre a qual somente eu posso responder. E quando precisei de ajuda, as pessoas estiveram ao meu lado o tempo todo. Pessoas conhecidas e desconhecidas, que não se recusaram a olhar para o lado quando viram que era preciso.
Esse momento, o momento presente, é tudo que temos. Que esse tempo fora do tempo não me deixe esquecer disso nunca mais – e que eu nunca mais olhe para alguém com o olhar de distanciamento que nos invade um pouco mais a cada dia. O distanciamento não existe quando a vida está em primeiro plano. E ela, apesar de nossas ilusões, está em primeiro plano sempre. Apesar das regras e preocupações de todo dia. A única coisa que podemos fazer pelos outros, e a maior, é compreender – daí vem tudo mais que precisamos saber. Hoje, a cada dia, tento compreender os sinais que meu corpo me transmite em silêncio. Talvez a vida nos mande sinais de recuperação a todo momento. É preciso olhar em volta para ver.
E que quando estiver bem cansada, ainda exista Amor para recomeçar.
(17.08.2007)
Decido ganhar tempo. O tempo é precioso nesta manhã. Posiciono-me entre as pessoas que esperam para atravessar a Augusta. Tento ficar entre as primeiras da fila. O trânsito é pesado. Quando os carros param de subir a rua, dou um passo. Viro meu pescoço para olhar para o outro lado. Vejo algo se avolumando a milímetros. Não tenho tempo de registrar o que é. Ouço uma pancada surda. Ouço também gritos atrás de mim.
Algumas pessoas me ajudam a deitar no chão. Uma moça segura minha mão, fazendo perguntas para me manter consciente. Um rapaz grita para que a moto pare. Um bombeiro toma nota do meu nome, do telefone da minha família. Olho para cima e vejo, de baixo, os ônibus e carros me contornando, tentando ganhar a Paulista que está logo ao meu lado. Uma pequena multidão ao redor, e os prédios se avolumando sobre mim. O céu é claro.
Foi um segundo. Minha mente ainda tenta formular alguma pergunta. Mas as preocupações de quinze minutos atrás, dentro do vagão do metrô, parecem pequenas. Ao ver o bombeiro rasgando minha calça, para dar espaço à perna, de repente me questiono se voltarei a andar. Tento guardar a imagem do céu e da Paulista na cabeça, como se fosse possível congelar o instante, congelar a vida para recomeçar depois do intervalo, do ponto em que ela parou, antes do sinal, do ônibus na esquina. De fechar os olhos e abri-los do outro lado da rua, entrando no ônibus, descendo a Brigadeiro, chegando no trabalho, abrindo o computador.
Inaugurei o plantão do HC naquele dia. Isso deve ser um sinal otimista para o hospital, considerando que já são quase dez da manhã, comento com o Bombeiro que me tira do Resgate. Ele não parece concordar. Talvez pela quantidade de pessoas, já àquela hora, sendo examinadas (estariam lá desde o dia anterior?). Deitada, olhando para o teto e sendo revirada por meia dúzia de residentes, não vejo nada. Mas ouço alguns sons que demonstram pessoas lutando, lutando bem mais do que eu. Mais tarde, Fê e André me confirmariam, com olhos apreensivos, esse cenário.
Permaneço no Pronto Socorro das 10 da manhã até as 4 da tarde. A sede, a fome e a febre vão se tornando imperceptíveis. E aprendo, em instantes, a confiar como nunca na vida. Sou examinada em partes do corpo que eu nem sabia que existiam. Das minhas roupas, só sobram as botas.
Dali, caminho óbvio, a ortopedia. Novos exames. Dor incomensurável. E o medo da operação começa a se transformar em reza, para que chegue logo, para que tudo aquilo acabe. Acaba por volta das 22h, quando vou ao quarto dormir, pernas sedadas, novos elementos no corpo. Cada parte do nosso corpo conta uma história.
Foi uma noite tranqüila, a primeira noite fora do tempo. A ela, se segue agora um desfile interminável de horas suspensas, de horas da verdade. De reaprender a usar o corpo. De não achar posição na cama. De ver o tempo passar e se indagar sobre o mundo lá fora. De lembrar viagens, passeios e pensar na maravilha de se locomover, de ganhar o mundo. De contar os dias para adivinhar quando a vida voltará ao normal.
Mas também de ver o sol pela janela, agradecer por ele aparecer na minha cama de manhã. De admirar a minha perna direita, brava guerreira trabalhando por duas, prestando sustentação inestimável. De observar o milagre que é um membro nosso perfeito, feito para nos fazer viver. De ver e festejar os centímetros a menos de inchaço na perna esquerda, de tremer com os pontos do machucado. De criar coragem para dobrar o joelho em 90 graus na fisioterapia, de fazer trabalhar o pé preguiçoso e assustado. De dizer “vai, você é capaz”. De me sentir feliz porque, afinal, estou aqui, podendo falar sobre isso depois daquele segundo em que não vi nada. Estou sentada em frente ao computador, escrevendo esse texto e chorando pela primeira vez desde que tudo aconteceu. E que no futuro vou lembrar disso como um tempo de pausa fora do tempo.
Na última semana, direta ou indiretamente, tive contato com muitos tipos de dramas humanos. O fato de ter um bom convênio médico me garantiu atendimento imediato no melhor hospital do país. Poupou-me de colocar pregos nos joelhos e de ficar imóvel numa cama por pelo menos três meses. Impediu que eu ficasse esperando num corredor de hospital por atendimento, que eu pudesse ter um quarto só para mim, que minha família e amigos estivessem ao meu lado – e que, mesmo assim, eu rezasse para que cada hora passasse rápido e eu pudesse ir para casa. Tive uma equipe de especialistas a meu dispor e enfermeiras disponíveis e cuidadosas, além de um médico atencioso e competente.
Todo o contrário, todo o desengano, a miséria e as exigências de provas sobre-humanas de paciência, tenho visto desfilar diante dos meus olhos. Em algum relato, em alguma imagem, em alguma história. De gente que teve a vida modificada para sempre. De pessoas que não tiveram ajuda, atenção ou a chance de atendimento adequado. E quando a impaciência me invade, quando a dor dos curativos vem de novo, quando acho que estou perdendo muito, tento guardar essas impressões para usá-las no futuro – na compreensão de tantos e piores dramas que insistimos em não ver, preocupados com nossos problemas soberanos.
Eu tenho um corpo perfeito que está se recuperando bem, graças à possibilidade que sempre tive de me cuidar, e da presença de uma família abençoada que me ama. Tenho amigos que estão ao meu lado, me dando muito mais do que eu poderei um dia retribuir. Tenho uma vida que está sob minha responsabilidade, sobre a qual somente eu posso responder. E quando precisei de ajuda, as pessoas estiveram ao meu lado o tempo todo. Pessoas conhecidas e desconhecidas, que não se recusaram a olhar para o lado quando viram que era preciso.
Esse momento, o momento presente, é tudo que temos. Que esse tempo fora do tempo não me deixe esquecer disso nunca mais – e que eu nunca mais olhe para alguém com o olhar de distanciamento que nos invade um pouco mais a cada dia. O distanciamento não existe quando a vida está em primeiro plano. E ela, apesar de nossas ilusões, está em primeiro plano sempre. Apesar das regras e preocupações de todo dia. A única coisa que podemos fazer pelos outros, e a maior, é compreender – daí vem tudo mais que precisamos saber. Hoje, a cada dia, tento compreender os sinais que meu corpo me transmite em silêncio. Talvez a vida nos mande sinais de recuperação a todo momento. É preciso olhar em volta para ver.
E que quando estiver bem cansada, ainda exista Amor para recomeçar.
(17.08.2007)
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