segunda-feira, 8 de junho de 2009

Seresta, mas sem café

Almoço de domingo. A mãe comenta que fizeram muito barulho na rua, na noite passada.

- É por causa do posto de gasolina. Os meninos ficam se concentrando lá e 'cantando os pneus' dos carros - comenta, descrevendo situação típica de dez entre dez cidades do interior.

- E olha que nem tem nenhuma moça da idade deles que more por aqui - diz o pai.

Todos fazem cara de 'Hein?'

A mãe olha para ele com expressão surreal.

- Agora você me fez ir até "mil novecentos e bolinha" - diz, talvez escolhendo a gíria jurássica pra ressaltar a antiguidade da lembrança.

E eles começam a contar. Nos anos idos, era costume dos rapazes saírem às ruas em bando, tarde da noite, violão em punho, para homenagear suas amadas.

- Nesta casa mesmo, onde nós moramos hoje, moravam duas moças - conta o pai - e uma vez o Belinho colocou um piano de cauda na carroceria do caminhão e parou aqui em frente, só para tocar para uma delas.

- E no final ela nem se casou com ele! - completa a mãe.

Mas a seresta não era dedicada só às namoradas ou pretendidas. Também mães, ou amigas, ou até alguma professora querida podiam ser homenageadas. Eles se reuniam e iam em excursão à casa escolhida naquela noite e, enquanto uns tocavam e cantavam, o respectivo namorado ou admirador da moradora ia bater à janela dela e oferecer uma rosa.

Às vezes, a seresta era um pedido de desculpas por alguma mancada do seresteiro. Em outras, era já esperada e anunciada com antecedência. Nesses casos, os pais da eleita preparavam até um lanchinho pós-cantoria para os visitantes.

Isso quando eram bem-recebidos, claro. Teve uma seresta, por exemplo, em que o pai da moça, criador de cabras, saiu à rua lá pela 1h da manhã mandando os meninos calarem a boca, porque "com aquele barulho os animais não iam dar leite no dia seguinte". Mas no geral, a rapaziada se saía bem.

- Eles ofereciam conhaque, chocolate quente, pãezinhos. E os meninos se fartavam, é claro - conta a mãe.

Só havia um artigo obrigatório no Código de Honra da Seresta Masculina: nunca, jamais, em tempo algum tomar café oferecido pelos pais da moça.

- Tinha uma simpatia naquele tempo - diz o pai. - Diziam que, para fazer o rapaz casar, as famílias serviam café coado na calcinha da menina. A gente passava frio, sede, mas não bebia café de jeito nenhum!

E uma vez meu pai fez uma seresta para a minha mãe, embalada pelo violão de um amigo, Alvino, que até hoje mora perto de casa. E uma tia, que morava na capital e estava passando uns dias na casa da minha avó, se admirou e abriu todas as janelas de madrugada, encantada, pois "em São Paulo não se vê mais dessas coisas". Talvez o bolo de maçã da minha avó (feito na maior higiene, bom que se diga!) também tivesse suas propriedades casamenteiras.

(08.06.2009)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Coisas não tão bestas

... que me causam saudades furtivas no meio da tarde.

Parar pra comer em posto de estrada, de madrugada.
Se arrumar pra ir em baile de formatura (e se acabar com as músicas nonsense).
Quarto de hotel com os pais (na infância).
Andar pelo Horto Florestal, sentindo cheiro de eucalipto.
Dar risada com amigos do trabalho, às 5 da tarde, acompanhada de café e croissant de chocolate.
Almoçar com os mesmos amigos no parque, em dias de trabalho.
Tomar uma bebida quente olhando o frio lá fora (em contextos diversos).
Trocar emails com novas variações sobre piadas fixas.
Aberturas de novelas que já acabaram.
Café na cozinha de casa, chegando da aula vespertina.
Céu vermelho do interior.
Céu azul, escancarado, do interior.
Pratinho de camarão na praia.
Cheiro de mar (no mar).
Bebidas de festa junina.
Comidas de festa junina.
Nadar.
Dormir até tarde.
Devorar um bom livro.
Rir muito ao telefone.
Ser tirada pra dançar.
Receber (boas) ligações de madrugada.
Dedicar músicas.
Cheiro de comida de Natal.
Dormir numa viagem.

(01.06.2009)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Fly me to the moon

Diga "eu te amo".
Diga "você é simplesmente fundamental na minha vida, e eu nunca, jamais, em tempo algum conseguiria viver sem você".
Diga "estar com você é o melhor momento do meu dia, o momento que eu passo todos os minutos esperando".
Diga "eu te amo, Juliana".
Diga "Eu, JULIANA, te amo, Juliana". :)

Fly me to the moon, let me play among the stars,
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars,
In other words, hold my hand!
In other words, darling kiss me!
Fill my heart with song, and let me sing forever more
You are all I long for all I worship & adore
In other words, please be true!
In other words, I love you!

(26.05.2009)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O 19

Quando ela saiu porta afora, recebeu o sorriso do garoto.
Um garotinho de cabelos claros
como o Sol que brilhava.
Ele olhava para ela, sorria e corria.
Atrás dele vinha outro,
de olhar risonho e rosto gêmeo.
E de repente ela se lembrou
da caminhada, dos amanheceres,
das conversas, do desvario,
da gritaria, do afeto imutável,
da mala arrumada, da expectativa,
da grama molhada, da foto tirada,
das idas e vindas, do abraço que espera,
do sonho, dos telefonemas,
do medo e do riso
do inesperado
da boa surpresa
da prece escutada
do coração silente
da alma em paz
e se viu de novo
no instante da outra semana
quando subitamente,
de tanta alegria,
teve vontade
de se atirar
e beijar o seu chão.

(11.05.2009)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Mais cenas paulistanas

No domingo de manhã, de novo na Paulista, combinação insólita de shopping center e Feira de Artesanato - autêntica, original e com a cara dos autores, apesar de dentro do templo do consumo. Suprema ironia em tempos de padronização das feiras-hippies-de-artigos-do-Paraguai.

No meio da rua, debaixo de sol, se ouve um rock alto nas proximidades do semáforo. O condutor de uma Harley gigantesca, no bom humor de seus cinquenta e poucos, sabe que é atração. Sorri e acena para os passantes curiosos; é sua a manhã da Paulista. Os acordes alegres atravessam a rua, contrastando com a figura silenciosa do mendigo que faz ponto todos os dias - no domingo também - ao lado do shopping.

Na mureta da esquina, um casal gay conversa sem susto. Do outro lado da rua, outro artista de cinquenta e poucos inunda o asfalto com um solo de sax. Pelas notas fundas e calmas, o mundo fica grande no feriadão da Paulista.

(21.04.2009)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Cenas noturnas

Semáforo abre na Avenida Paulista. Nove da noite, a língua de asfalto quase deserta. Os ônibus apenas avisam sua presença. De repente, o ciclista dá duas pedaladas certeiras e invade a avenida. Solto no espaço, noto seu sorriso de campos abertos.

Mais tarde, viro uma esquina em velocidade e espio pela janela. No meu ouvido, Zé Geraldo canta Mr. Tambourine Man. A cidade é uma cabana em frente ao fogo. Aconchegada em seus acordes, dedilho meu violão de idéias.


(15.04.2009)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Mito moderno

Ditou a esfinge:
decifra-me ou devoro-te.
E ao decifrá-la,
por livre vontade
escolhi ser devorada.

(14.04.2009)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O começo do início

Recentemente, durante um curso, a professora nos fez um relato muito interessante. Ela falou do ponto crítico em que decidiu mudar de vida. Tinha um emprego estável, um casamento burocrático, um cotidiano previsível. Até que lhe caiu em mãos um livro que abriu as portas para um novo conhecimento. Ela pirou. Devorou o livro, buscou mais informações, foi para o outro lado do mundo estudar e transformou o então fascínio em profissão. O casamento foi sepultado de vez, seu antigo emprego também. Em troca, ela ganhou de presente um novo caminho, novas pessoas, uma realização genuína e novas paixões. E, ao resumir toda a trajetória, lembrou que tudo começou quando ela viu aquele livro e institivamente pensou: "Danou-se". Ela já sabia que sua vida iria mudar. Que ali estava um inadiável início.

E hoje, depois de um email e uma rápida conversa, de repente lembrei da professora. Coração inflado no peito, tive a sensação de que, mesmo que seja só o primeiro passo, não há outra alternativa senão me embrenhar nessa picada. Agora, danou-se. A vida me oferece o sonho, sempre novo, apesar dos já antigos planos. Minha única missão, neste momento, é comprá-lo.

(08.04.2009)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sorriso

A menina caminha pela nova estrada. Passou por muitas, boas e más. Olha em volta seus muitos encontros, de alma, amizade, alegria. Lembra a festa das palavras, companhia feliz de olhares amigos. Saúda o abraço de todos, a descoberta da fé.

Ela ouve o que dizem e pensa. Na alma, perscruta em silêncio. A menina não é de muito falar, mas por dentro discursa os enredos. Na fervura de idéias, alquimiza sentidos. Alinhava o caminho que quer seguir. Depois, encontra palavras de acolhida.

Ela se alegra no olhar claro. E sente, no escuro, a alma crescer em raios de lua. No ar, o cheiro da nova estação. Feliz Ano Novo.

(20.03.2009)

domingo, 8 de março de 2009

No Dia da Mulher

Não cortem rosas para nos dar.
Não as tirem de onde nasceram, para nos homenagear com flores arrancadas, morrendo de sede em papel celofane.
Deixem-nas ali e passem pelo jardim, com atenção, para admirá-las.
Aprendam a compreender seu perfume sutil.
Não é perfume de tirar do frasco e exibir em salões.
É perfume a ser acompanhado em seus ciclos.
Observem o broto, o cair das pétalas.
Celebrem com alegria o perfume vivo das rosas.
Aprendam com as diferenças delicadas de suas cores.
Respeitem. Compartilhem.
Compreendam-nas como as coisas amadas querem ser compreendidas.
Assim se homenageia o que se ama:
com a Vida.

(09.03.2009)