segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Fugas e alívios

Respirar ar de chuva.
Espreguiçar.
Livros.
Bons filmes.
Música.
Beber de uma golada, quando com sede.
Desculpa pra não sair.
Pretexto para sair.
Paralisar na frente da TV.
Travesseiro.
Remédio para dor-de-cabeça.
Edredon recém-lavado.
Táxi em dia de chuva.
Yoga.
Pé feito.
Bomba de chocolate.
Morango com chocolate.
Café.
Meias grossas.
Internet.
Boa conversa.
Acompanhada de chopp ou vinho.
Saldo na conta.
Reencontros.

(18.08.2008)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Heranças

Eu tive um avô que me ensinou a falar "Guten Morgen" e "Guten Nacht". E tias que me acostumaram a gostar de "rosine" antes mesmo que eu soubesse que, na verdade, estava comendo uvas-passas. Minha mãe me dizia que era perigoso ir na "vöeschtele" sozinha, para evitar que eu entrasse no barracão onde meu avô trabalhava com madeira e causasse um acidente irreparável. E minha avó insistia que boas meninas falam "Danke schön" quando recebem um presente ou alguém lhes faz uma gentileza. E eu aprendi a falar tudo direitinho e repeti aquilo durante toda a minha infância, embora até hoje não saiba como se escrevem direito muitas das palavras que acabei de colocar aqui.

Eu aprendi que, no Natal, a gente deve botar um pinheirinho dentro de casa e pode decorá-lo com velas, mas elas são perigosas porque pegam fogo no resto, ou com bolachas, mas elas também são perigosas porque transformam as crianças em pequenos ladrões de enfeites de Natal antes da hora. Então, a gente decorava a árvore com as modernas luzinhas e bolas de plástico mesmo, embora o pinheirinho ainda fosse de verdade, e pinicasse se a gente sentasse muito perto dele. Ainda assim, como todo cuidado, colocávamos um presépio de papelão e os presentes ali embaixo, e continuávamos cantando as mesmas músicas na noite da ceia, e comendo dias antes as mesmas bolachas coloridas - dessa vez, roubadas de dentro do armário da cozinha, não mais da árvore.

Aprendi também que dá pra colorir ovos de galinha enrolando-os em cascas de cebola e em folhas de plantas, e deixando-os ferver por alguns minutos. No final, eles estarão cozidos e impressos com os desenhos das folhas, prontos para serem servidos na manhã de Páscoa. Antes dos chocolates, é claro, que nunca dispensamos - e que "conquistávamos" depois de procurar o esconderijo abastecido de ovos pelo "coelho" durante a noite anterior, no quintal.

Aprendi a entrar num galinheiro e descobrir quais galinhas tinham posto ovos, juntá-los numa cesta e levá-los pra dentro de casa - tudo isso sem sair do colo da minha tia. Aprendi a identificar o perfume de cheiro-verde na horta da minha avó, que ela protegia colocando no meio dos canteiros um pedaço de pau com um pano, à guiza de espantalho - enquanto eu ficava preocupada com a falta de criatividade daquele boneco, que desse jeito não ia espantar era nada.

Aprendi a trancar o portão da frente da casa, pra não entrar ninguém estranho, e a olhar dos dois lados pra atravessar aquela rua tão movimentada, guardando na lembrança uma remota imagem de quando ali em frente só havia árvores. Aprendi também a reconhecer o "bem-te-vi" que cantava de manhã, e que continuava ali com ou sem floresta fronteiriça - ou o barulho dos grilos que acompanhavam o final da tarde, num aviso meio agourento, colocando medo na gente de sair para o quintal escuro. Aprendi a montar cavalinho em pastor alemão e a me locomover de bicicleta sem derrapar no chão de terra.

Nada como ter alguém que nos ensine o que é essencial - aquilo que precisaremos usar todos os dias para viver uma boa vida.

(15.08.2008)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Portão de escola

Sabe aquelas crianças que, no primeiro dia de aula (ou no segundo, no quinto, no décimo...), se agarram chorando ao pescoço da mãe e não soltam de jeito nenhum, como se fossem ser abandonadas pra sempre? Não adianta explicar pra ela que é só por algumas horas, e que nesse meio tempo ela vai "fazer coisas muito legais, desenhar com a tia, brincar com os amiguinhos". Não adianta tentar persuadir, prometer coisas, dizer que "a mamãe já volta". Não adianta dizer que você está logo ali e que no final do dia voltará para encontrá-la. A urgência (ou medo) dela é maior do que isso, do que qualquer parquinho, brinquedo ou lápis de cor.

Depois de inúmeros shows, a criança, já "mocinha" (tipo uns dois anos depois), começa a achar os pequenos "bobos" por não conseguirem ficar sozinhos na escola. A sensação vai aumentando até chegar àquele espaço de tempo que vivemos entre o ser filha e o ser mãe - geralmente entre os 20 e os 30 anos - quando a gente olha de soslaio para aquelas duplas adulto/criança na porta da escola e, num silêncio um tanto enfadado, pensa com nossos botões: "ai, que paciência".

Mas o troco vem rápido para esse pensamentos pouco budistas. Tem dias em que a gente, sem chegar à iluminação materna, volta aos dias de infante que pedia colo. Acorda com vontade de ter febre, só pra matar aula e poder ficar na cama, com alguém trazendo chazinho pra gente tomar. Não quer ficar na escola sozinha, olhando em volta e esperando a palavra que não vem. Mesmo que saiba que no final do dia alguém vai vir te buscar. O "antes da hora" que a gente inventou, e que não acontece, vai virando uma coisa meio pesada, doída no peito. E a gente vira menina que viu o pai indo viajar, e passa as horas num silêncio sentido, sem pensar nem no brinquedo que ele prometeu trazer. No fundo, queria mesmo é ganhar, bem agora, um abraço. E alguém que, com um carinho, viesse nos pegar no colo e nos levar pra casa.

(09.07.2008)

terça-feira, 3 de junho de 2008

A solidão é traiçoeira

E pega a gente numa esquina que se dobra de noite.
Numa hora-extra não planejada.
Num jantar solitário no fast-food.
Na não-ligação de alguém que, na ausência de um dia, já faz morrer de saudade.
Na ausência de semanas, que transparece quando toca uma música.
Na piada fixa que se pensa e da qual se tem que rir sozinha.
No conhecido que não puxa papo há meses, e te contata só pra perguntar uma coisa muito objetiva. Antes de sumir de novo.
No recado carinhoso de alguém que fazia parte dos seus dias, e agora faz parte das suas palavras.
Na ausência incompreendida de amigos do peito, para quem a distância não deveria importar.
No cheiro de bolo que não se sente.
No perfume de lugares que ainda não são seus.

(03.06.2008)

Com o tempo...

... estou esquecendo mais os números. E trocando-os na hora de anotá-los. E errando telefones e endereços de casas.
... ando trocando nomes, como minhas tias, e provocando gafes inexplicáveis e únicas.
... desenvolvi o gosto por esmaltes escuros.
... também pela cor vermelha.
... estou repensando o desejo de ter um gato (apesar de continuar gostando deles).
... não tenho sentido tanto frio quanto imaginava que iria.
... me importo menos com a indiferença alheia.
... com os surtos também.
... dependo mais, emocionalmente, de quem eu gosto.
... sou mais agradecida.
... sou mais impaciente.
... perdi a gana de voltar a aprender música.
... desenvolvi o gosto por atividades físicas (leves).

... demoro o triplo para terminar de ler um livro.
... teorizo mais.
... como mais de uma vez só.
... consigo ficar ainda menos tempo sem chocolate.
... desenvolvi o gosto por café puro.
... meu lado Libra impera na perfumaria.
... e o Caprica no vai-ou-racha.
... me sinto pior ao negar uma esmola, se me pedem.
... faço menos trabalho voluntário, por falta de tempo.
... não consigo mais me adequar ao gosto "da galera".
... digo mais o que penso.
... travo mais ao me calar.
... sinto mais tudo aquilo que sinto.


(03.06.2008)

terça-feira, 8 de abril de 2008

30 anos

Dormir cedo em dia de sábado. Com gosto e sem culpa.
Conseguir dormir até tarde e ficar feliz por isso.
Perder pudores. Vários.
Se sentir realmente dona da sua própria casa.
Fazer planos. E novos planos. E muito pelo contrário.
Esquecer o que não presta.
Lembrar, de vez em quando, só pra esquecer de novo.
Ter preguiça de cumprir horários.
Tomar remédio, não poder beber e cumprir a determinação.
Marcar uma balada com duas semanas de antecedência.
Trocar a balada por filme + cobertor + pipoca.
Fazer baladas em casa.
Beber menos.
Comer mais.
Embaralhar as refeições.
Ter pensamentos contraditórios sobre a perspectiva de ter filhos (se você ainda não os têm).
Alternar fases afetivas descontrol com fases "morra, que não vou nem olhar".
Se surpreender em ver aquele amigo do seu irmão mais novo de casamento marcado.
Não se surpreender (tanto) em ver casamentos "supersólidos" terminando.
Demorar menos para se irritar com o trânsito.
Se espreguiçar e ver que tem muito mais coisas querendo voltar ao lugar do que antigamente.
Querer voltar a fazer exercício.
Não saber de onde veio aquela barriga.
Lembrar como você era besta no tempo da faculdade.
Lembrar como era bom o tempo da faculdade.
Olhar pela janela e lembrar de quando você tinha medo do mundo. E, ao mesmo tempo, ainda achava que podia conquistá-lo inteirinho.
Sentir saudade dos vinte e poucos anos.
E sentir, também, certo alívio porque já passaram.
Sentir culpas já vencidas, de vez em quando.
Lembrar velhas músicas.
Reciclar antigas idéias.
Rever velhos e bons amigos. E ver que, felizmente, o tempo não passou.

(08.04.2008)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Aurora


Já sinto o cheiro do novo no ar. Ele está vindo, com seus raios a iluminar a terra, as nuvens de nossos pensamentos, de nossa alma, de nossas expectativas. O que está cá dentro, no coração de cada um, cobra nascimento e procura espaço para florescer. É ele, de que tanto se falou, pelo qual se festejou, se esperou e comentou. Ele surge agora. Ele: um novo dia. Mais um dia, um dia inteiro, 24 horas novinhas, que chegam com todo o seu mar de possibilidades.

Esse é o ciclo que começa: um novo dia. Todos os dias, todos os meses e todos os anos. O momento que chega é nosso tesouro. Que os dias que anunciamos saltem a nossos olhos, trazendo força para nossos braços e energia para nossas pernas, para que possamos construir e caminhar rumo ao novo. Porque o novo pode nascer todos os dias. Com a beleza do sol que clareia nossa aurora.

Feliz Novo Dia!

Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.

Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-a-dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.
Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

(Thiago de Mello)

(03.01.2008)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Do que a gente precisa para mudar de vida?

Um choque elétrico?
Um chacoalhão?
Um grande amor?
Uma desilusão?
Uma fantasia?
Um furacão?
Um assalto ao banco?
Uma decisão?
Um atropelamento?
Um sim e um não.

(11.12.2007)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Moratória

Desejo de sexta à tarde: um momento aberto, profundo e belo como um céu azul.

Com brisa, por favor.

(30.11.2007)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O moço de farda

O moço de farda pega ônibus às 9h da manhã. Não se sabe para onde vai àquele horário, junto com outros moços de farda. Que me conste, é horário para homens de farda estarem em serviço, não andando pela cidade, desarmados, em "ônibus civis". Mas o moço de farda, acompanhado de outros dois moços, está descendo a Brigadeiro num ônibus mais ou menos cheio, atravancando um pouco a passagem de quem entra, formando com seus colegas uma aglomeração verde-oliva antes do cobrador. Ele tem olhar discreto e tranquilo, diferente do que se pensa dos moços de farda em geral. E, mesmo com o rosto impassível e olhar distante, chama a atenção das moças, de cima de sua altura morena.

O moço de farda vira as costas para o rapaz que distribui canetas contando aos passageiros - que olham pelas janelas - a história longa de como conseguiu se livrar das drogas e de como a participação de todos ajudará outros a se livrarem também, graças a Deus. De repente, silencioso, o moço de farda aborda o rapaz e estende a ele uma moeda de um real, sob os olhares e a concordância de seus colegas.

Os moços de farda, inclusive aquele de olhar tranquilo, descem no final da avenida e vão para algum lugar da cidade. O que farão? Pegarão em armas? Engrossarão exércitos? Carregarão cestas básicas? Subirão o morro?
E o que acontecerá, naqueles tempos, com o olhar manso no rosto cercado de verde-oliva?

(29.11.2007)