segunda-feira, 10 de maio de 2010

No céu

Na esquina da Faria Lima
Com a Cidade Jardim
entre passos ligeiros
cabeças baixas
celulares ligados
e buzinas de carros
ninguém nota o imenso arco-íris
que faz face
às nuvens douradas
acima dos prédios.

(10.05.2010)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Novilúnio

Com(o) a Lua Negra
minha alma
se escurece
procurando
motivos vários
para simplesmente
estar.

(17.03.2010)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Daqui a pouco

Daqui a pouco
vai acabar o horário de verão
as chuvas darão trégua
a casa ficará vazia
vai mudar o coração.

Daqui a um tempo
vou melhorar a alimentação
seguirei meu programa de exercícios
tirarei os agasalhos da gaveta
voltarei a tomar o chá da estação.

Soon or later
pretendo voltar a escrever
colocar em dia as leituras
conversar com meus amigos
fazer confidências ao silêncio
o silêncio
o silêncio.

Cedo ou tarde
o tempo oscilará
e só restará um rato
ou um pouco de pó pelos cantos
escondendo um brilho resistente.
Às vezes um olhar.
Às vezes um fio.

(19.02.2010)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O eterno ciclo

Ilustr. Stephanie Pui-Mun Law

Sem muitas palavras por hoje... apenas me entrego à grande roda e sinto o movimento, as luzes e os sons. Deixo a alma falar, e os braços e a mente agirem. E que, em meio a toda a confusão cotidiana, uma frestinha se abra e os bons ventos soprem, trazendo a paz para o coração.

Fortuna Imperatrix Mundi! E que ela traga o melhor.
.
(24.03.2007)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Lua Nova

O gato morre pela boca. Os defeitos aparecem, nos surpreendem, nos assaltam a paz. As pedras no caminho resolvem agredir os pés. A saudade aperta, os sonhos cobram nascimento. O grito sobe, sufoca a garganta, exige liberdade.

Ô tempo doido pra mexer com a alma da gente.

(29.08.2006)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Verdades idiotas e simples

... que insistimos em ignorar.

- A condição básica para que duas pessoas fiquem juntas, em um primeiro momento, é quererem ficar juntas. Não importa se uma não fala a língua da outra, se elas têm agendas muito cheias, se as famílias se odeiam ou se uma delas mora na China e outra no Casaquistão.

- A poluição deixa o ar muito abafado. E o único jeito de melhorar isso é quando chove. Mesmo que tudo fique inundado.

- Paulistas e cariocas dificilmente gostarão do sotaque um do outro. O mesmo vale para as variações de pizzas.

- Não adianta sair meia hora mais tarde de casa e querer chegar no trabalho no horário.

- Principalmente se for sexta-feira.

- Principalmente se você morar perto de Congonhas.

- Principalmente em vésperas de feriado (pelo trânsito, sim, mas também pela chuva-de final-de-tarde-vésperas-de-feriado mais indefectível que vestidinho preto).

- Não existem verdades absolutas.

- Não dá pra assistir televisão no sábado à noite.

- Muito menos no domingo à tarde.

- O Manoel Carlos não tem criatividade.

- Ficar gripada no calor é um saco.

- No frio não é muito melhor.

- Sempre vai ter algum tio pra falar no final do almoço em família: "a sobremesa é pavê ou pá comê?"

- Mulheres falam muito. Geralmente.

- Homens falam menos. Geralmente.

- 80% dos problemas da humanidade se resolveriam se as pessoas conversassem mais.

- 90% se tivessem mais auto-estima.

- 60% se elas falassem a verdade com mais freqüência.

- 40% se elas mentissem com mais classe.

- Máxima roubada da Paulinha: você pode dizer qualquer coisa pra qualquer pessoa. Basta encontrar a maneira e o momento certo de dizê-lo.

- Sempre que não tenho muito que dizer, recorro a listas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cismando

Segurar na mão do tempo
é inevitável aposta.

(23.11.2009)

Das mortes

Filho, sente-se aqui
para eu lembrar que ainda sou pai.
De filho não tenho mais nome
apenas origem repousando em sonho.
Mãe, me dê sua mão
para me lembrar de que ainda sou filha.
Pois a criança que tenho em mim
hoje chora para não morrer.
Amor, diga uma palavra
para que o sangue da sua língua
cicatrize o meu querer.
Cansa o caminho de ser tão de mim
Hoje só quero esquecer.

(23.11.2009)

sábado, 17 de outubro de 2009

Trieste

Eu me lembro de quando era criança e pedia para que você pegasse em minhas mãos e me rodasse no ar. Ainda hoje, quando me lembro de você mais demoradamente, é essa a imagem que me vem à mente. Mesmo depois de todos os anos, surpresas, castigos e retomadas que todos passamos. Mesmo depois de tão mais marcantes coisas e acontecimentos no nosso caminho.

Nos meus raciocínios infantis, você era para mim sinônimo de um homem alto, um dos homens mais altos do mundo, que não falava muito mas que tinha uma risada bonita e um gesto afetuoso sempre pronto. Eu, afeita a silêncios já desde pequena, não estranhava. Gostava da Taubaína oferecida em copo americano, do cheiro de casa do interior em férias e das palavras germanas que falávamos à guisa de bom dia, boa noite, por favor e obrigado e que você gostava de responder. Há muito mais, muito mais do tempo em nós do que podemos imaginar.

E foi o tempo que me mostrou um dia, com certo espanto, que talvez você não fosse o homem mais alto do mundo. Que afinal eu já conseguia olhar para você sem me perder em elevações. Seria eu que estaria mais alta ou você que encolhia? Por muito tempo achei que você havia encolhido. Encolhido na raiva e na insensibilidade de quem, numa palavra, consegue magoar um punhado de pessoas muito importantes em um momento de dor. Por um tempo, por anos, concluí que não conhecia você. Que ninguém havia conhecido de verdade, que é possível passar a vida inteira sem conhecer alguém de verdade.

Eu, na minha dor compartilhada, nesses momentos incompreendi. Como o acusava de ter feito um dia. Mas a verdade, a verdade maior, é que nunca poderemos compreender o Mistério. O Mistério que habita em nós por trás dos horários, das convenções sociais, daquilo que o padre falou, daquilo que achamos que é certo porque é o que esperam de nós. Daquilo que nós mesmos esperamos de nós. É impossível conhecer o Mistério que nos surpreende na curva do caminho, que nos angustia, nos divide e faz viver. O nosso Mistério. Quanto mais o Mistério de outra pessoa. Ainda que haja muito em nós desse outro, que ele nos tenha doado a própria vida, histórias, tradições, células.

O seu Mistério eu nunca conhecerei. A maneira como enfrentou as travessias desde que nasceu. Como construiu sua alma e qual o quinhão do mundo nessa construção. O que pensou, sentiu, perdeu, a vontade e o sentimento das escolhas que fez. As lágrimas que derrubou antes e durante a vida e as vidas que viveu. Posso apenas ter uma pista, uma tênue idéia por trás dos discursos, das rabugices e dos temas de um cotidiano novamente próximo, passada a tempestade. Pelo olhar de ternura de quem não sabe como falar certas coisas, já entrado em tantos anos. Pelas mãos postas em torno da cabeça, a atenção constante, as músicas, a discreta obstinação. Mas também pela certeza de que no fundo, tanto os desvios de percurso quanto as voltas ao lar foram causados por esse mesmo Mistério que levamos dentro, grandioso e inexplicável, muitas vezes impossível de ser expresso fora de tantas caixinhas perdidas pela casa e pelo tempo.

Por isso, num dia como hoje, a única coisa em que consegui pensar ao encarar seu olhar tão profundo, um olhar dolorido e quase infantil, foi naquelas orações de quando era criança. Nada de grandes meditações, mentalizações ou filosofias. Mesmo depois de todas as mudanças e idas e vindas do meu próprio ser em contato com seus Mistérios. Mesmo bem-intencionada, tentando conter a covardia e o sentimento que eu sabia que não ia conseguir dominar. Hoje, tudo em que eu pude pensar foi naquela fé simples, naqueles dias e noites em que aprendi a unir as mãos e apenas agradecer ou pedir, como quem conversa com anjos trazendo presentes pelos braços.

Hoje, eu pensei naqueles dias e naquele cheiro de casa de vó da minha infância. E pedi que você esteja bem, esteja acompanhado e agasalhado, que possa dormir tranquilo e que mãos boas estejam prontas para te amparar. Pedi paz para o seu coração, e que você esteja leve, como eu ficava quando você me rodava no ar presa pelas suas mãos. E eu me sentia um pouco mais perto do céu, de onde você me olhava, o homem mais alto do mundo.

(17.10.2009)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Agora vai

Uma hora você não pode mais adiar uma decisão.
Você olha em volta e sabe que simplesmente a hora é aquela. Que tudo que você pensou está na porta, cobrando que você abra, que deixe as idéias entrarem na sua vida.
Você bota o carro pra andar e, pelos rostos das pessoas nos bancos de passageiro, sente que simplesmente não dá mais para voltar atrás.
Que agora é hora de assumir os sonhos, as aspirações, o desejo de concretizar aquilo a que se veio.
Com medo, preocupação e coragem, você vai. Se joga ao caminho e percebe a alegria de comprar um sonho.
Você pressente que ainda vai passar por alguns muitos perrengues. Sabe que isso é só o começo e que uma estrada, larga e íngreme, espera para testar a força de suas pernas.
Mas sabe também que esse caminho, mesmo que ainda não percorrido, já é parte de você.
Vocês se escolheram e agora se merecem. E assim, você vai escalá-lo: para crescer. Para renascer. Para viver.
Para descobrir e se reencontrar com você.
Que as estrelas do universo iluminem essa jornada.
Que o sopro da Sabedoria esteja conduzindo essas velas.
E que o ar da manhã possa invadir esses pulmões, na gratidão pelo caminho e por quem nele está.

(07.09.2009)