quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O eterno ciclo

Ilustr. Stephanie Pui-Mun Law

Sem muitas palavras por hoje... apenas me entrego à grande roda e sinto o movimento, as luzes e os sons. Deixo a alma falar, e os braços e a mente agirem. E que, em meio a toda a confusão cotidiana, uma frestinha se abra e os bons ventos soprem, trazendo a paz para o coração.

Fortuna Imperatrix Mundi! E que ela traga o melhor.
.
(24.03.2007)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Lua Nova

O gato morre pela boca. Os defeitos aparecem, nos surpreendem, nos assaltam a paz. As pedras no caminho resolvem agredir os pés. A saudade aperta, os sonhos cobram nascimento. O grito sobe, sufoca a garganta, exige liberdade.

Ô tempo doido pra mexer com a alma da gente.

(29.08.2006)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Verdades idiotas e simples

... que insistimos em ignorar.

- A condição básica para que duas pessoas fiquem juntas, em um primeiro momento, é quererem ficar juntas. Não importa se uma não fala a língua da outra, se elas têm agendas muito cheias, se as famílias se odeiam ou se uma delas mora na China e outra no Casaquistão.

- A poluição deixa o ar muito abafado. E o único jeito de melhorar isso é quando chove. Mesmo que tudo fique inundado.

- Paulistas e cariocas dificilmente gostarão do sotaque um do outro. O mesmo vale para as variações de pizzas.

- Não adianta sair meia hora mais tarde de casa e querer chegar no trabalho no horário.

- Principalmente se for sexta-feira.

- Principalmente se você morar perto de Congonhas.

- Principalmente em vésperas de feriado (pelo trânsito, sim, mas também pela chuva-de final-de-tarde-vésperas-de-feriado mais indefectível que vestidinho preto).

- Não existem verdades absolutas.

- Não dá pra assistir televisão no sábado à noite.

- Muito menos no domingo à tarde.

- O Manoel Carlos não tem criatividade.

- Ficar gripada no calor é um saco.

- No frio não é muito melhor.

- Sempre vai ter algum tio pra falar no final do almoço em família: "a sobremesa é pavê ou pá comê?"

- Mulheres falam muito. Geralmente.

- Homens falam menos. Geralmente.

- 80% dos problemas da humanidade se resolveriam se as pessoas conversassem mais.

- 90% se tivessem mais auto-estima.

- 60% se elas falassem a verdade com mais freqüência.

- 40% se elas mentissem com mais classe.

- Máxima roubada da Paulinha: você pode dizer qualquer coisa pra qualquer pessoa. Basta encontrar a maneira e o momento certo de dizê-lo.

- Sempre que não tenho muito que dizer, recorro a listas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cismando

Segurar na mão do tempo
é inevitável aposta.

(23.11.2009)

Das mortes

Filho, sente-se aqui
para eu lembrar que ainda sou pai.
De filho não tenho mais nome
apenas origem repousando em sonho.
Mãe, me dê sua mão
para me lembrar de que ainda sou filha.
Pois a criança que tenho em mim
hoje chora para não morrer.
Amor, diga uma palavra
para que o sangue da sua língua
cicatrize o meu querer.
Cansa o caminho de ser tão de mim
Hoje só quero esquecer.

(23.11.2009)

sábado, 17 de outubro de 2009

Trieste

Eu me lembro de quando era criança e pedia para que você pegasse em minhas mãos e me rodasse no ar. Ainda hoje, quando me lembro de você mais demoradamente, é essa a imagem que me vem à mente. Mesmo depois de todos os anos, surpresas, castigos e retomadas que todos passamos. Mesmo depois de tão mais marcantes coisas e acontecimentos no nosso caminho.

Nos meus raciocínios infantis, você era para mim sinônimo de um homem alto, um dos homens mais altos do mundo, que não falava muito mas que tinha uma risada bonita e um gesto afetuoso sempre pronto. Eu, afeita a silêncios já desde pequena, não estranhava. Gostava da Taubaína oferecida em copo americano, do cheiro de casa do interior em férias e das palavras germanas que falávamos à guisa de bom dia, boa noite, por favor e obrigado e que você gostava de responder. Há muito mais, muito mais do tempo em nós do que podemos imaginar.

E foi o tempo que me mostrou um dia, com certo espanto, que talvez você não fosse o homem mais alto do mundo. Que afinal eu já conseguia olhar para você sem me perder em elevações. Seria eu que estaria mais alta ou você que encolhia? Por muito tempo achei que você havia encolhido. Encolhido na raiva e na insensibilidade de quem, numa palavra, consegue magoar um punhado de pessoas muito importantes em um momento de dor. Por um tempo, por anos, concluí que não conhecia você. Que ninguém havia conhecido de verdade, que é possível passar a vida inteira sem conhecer alguém de verdade.

Eu, na minha dor compartilhada, nesses momentos incompreendi. Como o acusava de ter feito um dia. Mas a verdade, a verdade maior, é que nunca poderemos compreender o Mistério. O Mistério que habita em nós por trás dos horários, das convenções sociais, daquilo que o padre falou, daquilo que achamos que é certo porque é o que esperam de nós. Daquilo que nós mesmos esperamos de nós. É impossível conhecer o Mistério que nos surpreende na curva do caminho, que nos angustia, nos divide e faz viver. O nosso Mistério. Quanto mais o Mistério de outra pessoa. Ainda que haja muito em nós desse outro, que ele nos tenha doado a própria vida, histórias, tradições, células.

O seu Mistério eu nunca conhecerei. A maneira como enfrentou as travessias desde que nasceu. Como construiu sua alma e qual o quinhão do mundo nessa construção. O que pensou, sentiu, perdeu, a vontade e o sentimento das escolhas que fez. As lágrimas que derrubou antes e durante a vida e as vidas que viveu. Posso apenas ter uma pista, uma tênue idéia por trás dos discursos, das rabugices e dos temas de um cotidiano novamente próximo, passada a tempestade. Pelo olhar de ternura de quem não sabe como falar certas coisas, já entrado em tantos anos. Pelas mãos postas em torno da cabeça, a atenção constante, as músicas, a discreta obstinação. Mas também pela certeza de que no fundo, tanto os desvios de percurso quanto as voltas ao lar foram causados por esse mesmo Mistério que levamos dentro, grandioso e inexplicável, muitas vezes impossível de ser expresso fora de tantas caixinhas perdidas pela casa e pelo tempo.

Por isso, num dia como hoje, a única coisa em que consegui pensar ao encarar seu olhar tão profundo, um olhar dolorido e quase infantil, foi naquelas orações de quando era criança. Nada de grandes meditações, mentalizações ou filosofias. Mesmo depois de todas as mudanças e idas e vindas do meu próprio ser em contato com seus Mistérios. Mesmo bem-intencionada, tentando conter a covardia e o sentimento que eu sabia que não ia conseguir dominar. Hoje, tudo em que eu pude pensar foi naquela fé simples, naqueles dias e noites em que aprendi a unir as mãos e apenas agradecer ou pedir, como quem conversa com anjos trazendo presentes pelos braços.

Hoje, eu pensei naqueles dias e naquele cheiro de casa de vó da minha infância. E pedi que você esteja bem, esteja acompanhado e agasalhado, que possa dormir tranquilo e que mãos boas estejam prontas para te amparar. Pedi paz para o seu coração, e que você esteja leve, como eu ficava quando você me rodava no ar presa pelas suas mãos. E eu me sentia um pouco mais perto do céu, de onde você me olhava, o homem mais alto do mundo.

(17.10.2009)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Agora vai

Uma hora você não pode mais adiar uma decisão.
Você olha em volta e sabe que simplesmente a hora é aquela. Que tudo que você pensou está na porta, cobrando que você abra, que deixe as idéias entrarem na sua vida.
Você bota o carro pra andar e, pelos rostos das pessoas nos bancos de passageiro, sente que simplesmente não dá mais para voltar atrás.
Que agora é hora de assumir os sonhos, as aspirações, o desejo de concretizar aquilo a que se veio.
Com medo, preocupação e coragem, você vai. Se joga ao caminho e percebe a alegria de comprar um sonho.
Você pressente que ainda vai passar por alguns muitos perrengues. Sabe que isso é só o começo e que uma estrada, larga e íngreme, espera para testar a força de suas pernas.
Mas sabe também que esse caminho, mesmo que ainda não percorrido, já é parte de você.
Vocês se escolheram e agora se merecem. E assim, você vai escalá-lo: para crescer. Para renascer. Para viver.
Para descobrir e se reencontrar com você.
Que as estrelas do universo iluminem essa jornada.
Que o sopro da Sabedoria esteja conduzindo essas velas.
E que o ar da manhã possa invadir esses pulmões, na gratidão pelo caminho e por quem nele está.

(07.09.2009)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Lua Cheia

Voar, voar.
Olhar o horizonte. Romper as amarras.
Mergulhar.
Lutar.
Pensar, escrever, parir.
Sonhar.
Crescer.
Ousar.
Mudar.
Começar novo caminho.
De alma grande, grávida de idéias.
Iluminada pela velha senhora.
E encontrar, num instante,
o que se é desde sempre.

(04.09.2009)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Calculadora

Quanto vale a paz de espírito para levantar todos os dias da cama?
Quanto vale o coração leve, sem culpas ou ressentimentos, na certeza de percorrer o caminho escolhido pela alma?
Pode-se contabilizar o silêncio de um final de tarde depois da expansão dos pulmões no ar selvagem?
Quanto valem os sonhos, o coração ao alto, o brilho nos olhos?
Como dizer o valor das palavras bem ditas? Da segurança do pensar? Do céu sobre a cabeça e a estrada certa sob os pés?
Apenas o necessário a uma mente exilada para resistir por dias a fio.

(03.09.2009)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sorriso

É assim:
tem gente que nem precisa sorrir muito
para que o sorriso acompanhe a gente pela vida inteira.

(07.08.2009)

domingo, 28 de junho de 2009

Atlântico

Será que isso é saudade
possibilidade
desejo desesperado
de ver o sonho voar
ou só vontade de abraço
em tarde cinza de domingo?

(28.06.2009)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Virada

Como conviver
com o caos
com a dor
com a luta
com a fera
com a raiva
com o mar
com a chuva
com os ares
e a revolta
desse mundo
ao olhar
toda a força
de seus olhos
mundos negros
na penumbra?

(18.06.2009)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Paradoxos encontráveis

Tem algumas pessoas ou costumes na vida que a gente deixa de rever ou praticar, de uma hora para outra. Geralmente, por um bom motivo. E é comum nos esquecermos disso de vez em quando, quando pensamos "puxa, eu gosto tanto de tal pessoa, não sei por que a gente não se vê mais vezes", ou "eu fazia isso toda semana, por que deixei de fazer?". E é comum também que, assim que a gente reveja a pessoa ou refaça a referida coisa, acabe se lembrando imediatamente do motivo de a ter deixado - seja ele de ordem prática ou de atual (falta de) afinidade mesmo.

Felizmente, há também os casos opostos: aqueles em que a gente sente preguiça, adia, tenta arrumar desculpas, mas alguma coisa faz com que siga em frente, não remarque, pegue trocentos ônibus para chegar ao momento de retomar ou reforçar o contato. E, frente a frente, tenha a feliz sensação de saber, exatamente, o por quê de nunca ter desistido.

(17.06.2009)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Seresta, mas sem café

Almoço de domingo. A mãe comenta que fizeram muito barulho na rua, na noite passada.

- É por causa do posto de gasolina. Os meninos ficam se concentrando lá e 'cantando os pneus' dos carros - comenta, descrevendo situação típica de dez entre dez cidades do interior.

- E olha que nem tem nenhuma moça da idade deles que more por aqui - diz o pai.

Todos fazem cara de 'Hein?'

A mãe olha para ele com expressão surreal.

- Agora você me fez ir até "mil novecentos e bolinha" - diz, talvez escolhendo a gíria jurássica pra ressaltar a antiguidade da lembrança.

E eles começam a contar. Nos anos idos, era costume dos rapazes saírem às ruas em bando, tarde da noite, violão em punho, para homenagear suas amadas.

- Nesta casa mesmo, onde nós moramos hoje, moravam duas moças - conta o pai - e uma vez o Belinho colocou um piano de cauda na carroceria do caminhão e parou aqui em frente, só para tocar para uma delas.

- E no final ela nem se casou com ele! - completa a mãe.

Mas a seresta não era dedicada só às namoradas ou pretendidas. Também mães, ou amigas, ou até alguma professora querida podiam ser homenageadas. Eles se reuniam e iam em excursão à casa escolhida naquela noite e, enquanto uns tocavam e cantavam, o respectivo namorado ou admirador da moradora ia bater à janela dela e oferecer uma rosa.

Às vezes, a seresta era um pedido de desculpas por alguma mancada do seresteiro. Em outras, era já esperada e anunciada com antecedência. Nesses casos, os pais da eleita preparavam até um lanchinho pós-cantoria para os visitantes.

Isso quando eram bem-recebidos, claro. Teve uma seresta, por exemplo, em que o pai da moça, criador de cabras, saiu à rua lá pela 1h da manhã mandando os meninos calarem a boca, porque "com aquele barulho os animais não iam dar leite no dia seguinte". Mas no geral, a rapaziada se saía bem.

- Eles ofereciam conhaque, chocolate quente, pãezinhos. E os meninos se fartavam, é claro - conta a mãe.

Só havia um artigo obrigatório no Código de Honra da Seresta Masculina: nunca, jamais, em tempo algum tomar café oferecido pelos pais da moça.

- Tinha uma simpatia naquele tempo - diz o pai. - Diziam que, para fazer o rapaz casar, as famílias serviam café coado na calcinha da menina. A gente passava frio, sede, mas não bebia café de jeito nenhum!

E uma vez meu pai fez uma seresta para a minha mãe, embalada pelo violão de um amigo, Alvino, que até hoje mora perto de casa. E uma tia, que morava na capital e estava passando uns dias na casa da minha avó, se admirou e abriu todas as janelas de madrugada, encantada, pois "em São Paulo não se vê mais dessas coisas". Talvez o bolo de maçã da minha avó (feito na maior higiene, bom que se diga!) também tivesse suas propriedades casamenteiras.

(08.06.2009)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Coisas não tão bestas

... que me causam saudades furtivas no meio da tarde.

Parar pra comer em posto de estrada, de madrugada.
Se arrumar pra ir em baile de formatura (e se acabar com as músicas nonsense).
Quarto de hotel com os pais (na infância).
Andar pelo Horto Florestal, sentindo cheiro de eucalipto.
Dar risada com amigos do trabalho, às 5 da tarde, acompanhada de café e croissant de chocolate.
Almoçar com os mesmos amigos no parque, em dias de trabalho.
Tomar uma bebida quente olhando o frio lá fora (em contextos diversos).
Trocar emails com novas variações sobre piadas fixas.
Aberturas de novelas que já acabaram.
Café na cozinha de casa, chegando da aula vespertina.
Céu vermelho do interior.
Céu azul, escancarado, do interior.
Pratinho de camarão na praia.
Cheiro de mar (no mar).
Bebidas de festa junina.
Comidas de festa junina.
Nadar.
Dormir até tarde.
Devorar um bom livro.
Rir muito ao telefone.
Ser tirada pra dançar.
Receber (boas) ligações de madrugada.
Dedicar músicas.
Cheiro de comida de Natal.
Dormir numa viagem.

(01.06.2009)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Fly me to the moon

Diga "eu te amo".
Diga "você é simplesmente fundamental na minha vida, e eu nunca, jamais, em tempo algum conseguiria viver sem você".
Diga "estar com você é o melhor momento do meu dia, o momento que eu passo todos os minutos esperando".
Diga "eu te amo, Juliana".
Diga "Eu, JULIANA, te amo, Juliana". :)

Fly me to the moon, let me play among the stars,
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars,
In other words, hold my hand!
In other words, darling kiss me!
Fill my heart with song, and let me sing forever more
You are all I long for all I worship & adore
In other words, please be true!
In other words, I love you!

(26.05.2009)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O 19

Quando ela saiu porta afora, recebeu o sorriso do garoto.
Um garotinho de cabelos claros
como o Sol que brilhava.
Ele olhava para ela, sorria e corria.
Atrás dele vinha outro,
de olhar risonho e rosto gêmeo.
E de repente ela se lembrou
da caminhada, dos amanheceres,
das conversas, do desvario,
da gritaria, do afeto imutável,
da mala arrumada, da expectativa,
da grama molhada, da foto tirada,
das idas e vindas, do abraço que espera,
do sonho, dos telefonemas,
do medo e do riso
do inesperado
da boa surpresa
da prece escutada
do coração silente
da alma em paz
e se viu de novo
no instante da outra semana
quando subitamente,
de tanta alegria,
teve vontade
de se atirar
e beijar o seu chão.

(11.05.2009)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Mais cenas paulistanas

No domingo de manhã, de novo na Paulista, combinação insólita de shopping center e Feira de Artesanato - autêntica, original e com a cara dos autores, apesar de dentro do templo do consumo. Suprema ironia em tempos de padronização das feiras-hippies-de-artigos-do-Paraguai.

No meio da rua, debaixo de sol, se ouve um rock alto nas proximidades do semáforo. O condutor de uma Harley gigantesca, no bom humor de seus cinquenta e poucos, sabe que é atração. Sorri e acena para os passantes curiosos; é sua a manhã da Paulista. Os acordes alegres atravessam a rua, contrastando com a figura silenciosa do mendigo que faz ponto todos os dias - no domingo também - ao lado do shopping.

Na mureta da esquina, um casal gay conversa sem susto. Do outro lado da rua, outro artista de cinquenta e poucos inunda o asfalto com um solo de sax. Pelas notas fundas e calmas, o mundo fica grande no feriadão da Paulista.

(21.04.2009)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Cenas noturnas

Semáforo abre na Avenida Paulista. Nove da noite, a língua de asfalto quase deserta. Os ônibus apenas avisam sua presença. De repente, o ciclista dá duas pedaladas certeiras e invade a avenida. Solto no espaço, noto seu sorriso de campos abertos.

Mais tarde, viro uma esquina em velocidade e espio pela janela. No meu ouvido, Zé Geraldo canta Mr. Tambourine Man. A cidade é uma cabana em frente ao fogo. Aconchegada em seus acordes, dedilho meu violão de idéias.


(15.04.2009)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Mito moderno

Ditou a esfinge:
decifra-me ou devoro-te.
E ao decifrá-la,
por livre vontade
escolhi ser devorada.

(14.04.2009)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O começo do início

Recentemente, durante um curso, a professora nos fez um relato muito interessante. Ela falou do ponto crítico em que decidiu mudar de vida. Tinha um emprego estável, um casamento burocrático, um cotidiano previsível. Até que lhe caiu em mãos um livro que abriu as portas para um novo conhecimento. Ela pirou. Devorou o livro, buscou mais informações, foi para o outro lado do mundo estudar e transformou o então fascínio em profissão. O casamento foi sepultado de vez, seu antigo emprego também. Em troca, ela ganhou de presente um novo caminho, novas pessoas, uma realização genuína e novas paixões. E, ao resumir toda a trajetória, lembrou que tudo começou quando ela viu aquele livro e institivamente pensou: "Danou-se". Ela já sabia que sua vida iria mudar. Que ali estava um inadiável início.

E hoje, depois de um email e uma rápida conversa, de repente lembrei da professora. Coração inflado no peito, tive a sensação de que, mesmo que seja só o primeiro passo, não há outra alternativa senão me embrenhar nessa picada. Agora, danou-se. A vida me oferece o sonho, sempre novo, apesar dos já antigos planos. Minha única missão, neste momento, é comprá-lo.

(08.04.2009)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sorriso

A menina caminha pela nova estrada. Passou por muitas, boas e más. Olha em volta seus muitos encontros, de alma, amizade, alegria. Lembra a festa das palavras, companhia feliz de olhares amigos. Saúda o abraço de todos, a descoberta da fé.

Ela ouve o que dizem e pensa. Na alma, perscruta em silêncio. A menina não é de muito falar, mas por dentro discursa os enredos. Na fervura de idéias, alquimiza sentidos. Alinhava o caminho que quer seguir. Depois, encontra palavras de acolhida.

Ela se alegra no olhar claro. E sente, no escuro, a alma crescer em raios de lua. No ar, o cheiro da nova estação. Feliz Ano Novo.

(20.03.2009)

domingo, 8 de março de 2009

No Dia da Mulher

Não cortem rosas para nos dar.
Não as tirem de onde nasceram, para nos homenagear com flores arrancadas, morrendo de sede em papel celofane.
Deixem-nas ali e passem pelo jardim, com atenção, para admirá-las.
Aprendam a compreender seu perfume sutil.
Não é perfume de tirar do frasco e exibir em salões.
É perfume a ser acompanhado em seus ciclos.
Observem o broto, o cair das pétalas.
Celebrem com alegria o perfume vivo das rosas.
Aprendam com as diferenças delicadas de suas cores.
Respeitem. Compartilhem.
Compreendam-nas como as coisas amadas querem ser compreendidas.
Assim se homenageia o que se ama:
com a Vida.

(09.03.2009)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Quando as coisas acabam

Às vezes as coisas terminam contra a nossa vontade. Não porque somos surpreendidos com uma palavra de fim; não porque alguém nos dispensa à revelia do nosso sentimento. Não: de repente, nosso sentimento é que nos aparece mudado, acabado, transformado. Ele resolve ir contra nossos sonhos, nossos planos, nossas crenças sobre a gente mesmo. A gente ainda gosta daquilo que está ao lado. Mas simplesmente não consegue mais. Não dá mais pra ter brilho nos olhos, não dá mais pra sorrir como antes. A gente tenta ouvir (e cantar) as mesmas músicas, vestir a mesma roupa "daquele" dia que foi tão especial aquela vez, tenta achar em algum lugar aquela alegria. E não vem nada, e dói perceber que a gente não cabe mais ali onde ainda queria caber.

Aí a gente lembra de outras vezes em que ouviu a frase fatídica - aquelas vezes em que achava tudo muito surreal, quando a gente é que não entendia como seria possível, já que pra nós continuava tudo lindo, limpo e brilhante. "Alguma coisa não é mais igual". Como assim não é mais igual? Coisa de gente que não se entende, que não sabe terminar as coisas. Coisa de gente que busca desculpas, que não aceita o próprio medo.

É, tem esses casos. Eu, particularmente, até hoje não consegui fazer isso com amores ou amigos de fé. Por mais que apanhe, insisto num jeito muito antiquado de encarar relacionamentos: acho que, quando se gosta da pessoa, da pessoa mesmo e não da circunstância ou dos acompanhamentos (tão fugazes às vezes...), não se amanhece com "prazo de validade vencido". Pra desistir de uma pessoa querida, só mesmo em caso de falta gravíssima. E mesmo assim, dói feito a peste. Mas já senti o vazio traiçoeiro e assassino em situações de trabalho, em épocas diversas da vida, diante de coisas antes muito amadas - e situações que envolviam inclusive pessoas que compartilhavam o momento. E sei como é quando uma coisa se desencanta diante dos seus olhos, sem que você possa fazer muita coisa a respeito. É diferente de fugir por medo, de mascarar o pânico de mudar de vida com a falsa desculpa do desapego - coisa que ocorre corriqueiramente, muito mais do que gostariam os incautos pegos de surpresa pelos conflitos alheios. Esse vácuo insuspeito é como olhar para a comida que esfriou, pros brinquedos velhos de criança, pra rua onde não dá mais pra jogar futebol. A gente nunca mais vai esquecer. Mas também nunca mais vai reviver.

E a gente chora sem saber por quê vai partir. Chora pelo que sabe que está deixando, mas chora principalmente pelo que já acabou faz tempo. Depois respira fundo, esvazia as gavetas e tenta sair sem olhar muito para trás. Retira-se da redoma de amor e proteção, onde porém não há mais ar, pra se lançar ao vazio. Muitas vezes se ferra grandemente, passa por noites de frio e fome, acha que se arrependeu, que fez a maior merda da sua vida. Caminha muito até encontrar abrigo de novo, tanto tempo a ponto de até quase esquecer o que deixou - o bom e o ruim.

Até que um dia, muito tempo depois, finalmente entende a escolha que fez pra si mesmo. É o momento de colher os louros da aposta que fez em algo novo. Claro: se essa aposta foi genuína, se não foi fuga ou precipitação, se não foi interpretação errada dos sinais. Quando a gente resiste à imensa tentação de colocar nos outros uma responsabilidade por mudança que é só nossa - afinal, foi a gente que cresceu, e não o espaço que diminuiu; e não adianta procurar outro lugar igual ou parecido, tentando achar o frescor do início dos tempos. Às vezes, o problema sequer está no espaço. Mais do que novo endereço, é preciso mudar o padrão de verdade, na mente e na alma. Encarar o choque exigido naquele momento, por terrível que seja, mas necessário para evitar o sacrifício de uma vida. Olhar para si mesmo, sem mentiras, para evitar ferimentos profundos - e, principalmente, evitar ferir os outros também.

Esse é o desafio que temos sempre como lição de casa. Porque, de vez em quando, dói falar a verdade pra gente mesmo. Mas mergulhar em si, enfrentando os furacões e os redemoinhos, é a única forma de, depois, não se afogar nas próprias ondas.

(28.01.2009)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Arte

A noite está tão escura e eu tão sozinha.
Como companhia, só minhas culpas.
Mas de repente
a lua aparece, mesmo que eu não a veja
e um acorde me faz lembrar antigas
e novas coisas.
Esse acorde
é macio como cama de mãe
e amplo como horizonte a caminhar.
E eu desperto do meu egoísmo
e lembro o quanto ainda vivo.

(27.01.2009)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Numa tarde de sexta-feira

Talvez eu devesse me importar mais com os sentimentos dos outros. Ou menos.
Talvez eu devesse prestar mais atenção nas pessoas e nas coisas que estão à minha volta. Talvez eu devesse medir minhas palavras. Ou mais.
Talvez eu devesse praticar mais a verdade, para quando ter de dizê-la, ela não saísse áspera, ou dura demais. Ou talvez a verdade, essa louca travestida, esteja tão latente nos meus pensamentos e palavras que eu já não saiba como torná-la ainda mais exposta. E achando que meus atos falam por si, ela mais e mais se esconde, como muda numa terra de cegos.
Talvez eu devesse me deixar levar pelos vapores quentes de antigas histórias e criar um novo caminho, cheio de velhas lembranças e amores. Talvez eu devesse andar pela rua, apenas, cantarolando despreocupada, e tentar aproveitar esse fim de tarde mais fresco que os demais.
Mas minha alma se confunde e, lá no fundo, faz perguntas sem drama. Quer saber quais as cenas dos próximos capítulos. Quer respirar o ar de novas paragens e abraços. Quer saber se é possível estar atada, mesmo livre, àquela frase solta na madrugada. "Eu sempre estarei com você, você sabe".
Essa frase tão bamba, tão fugaz, tão bela quanto uma pétala de amor-de-homem solta pelos ares.

(26.01.2009)

domingo, 25 de janeiro de 2009

SP, para enamorados



Sampa também tem luar :)

Estou de volta à minha cidade, São Paulo, depois de uma movimentada e educativa temporada em Porto Alegre. Como diria o poeta Fernando Pessoa, é difícil dizer o quanto isso me alegra e o quanto me basta. Em meio às incertezas, a todas as idas e vindas, é bom reconhecer as ruas, andar de novo pelo universo que me é tão caro. Nessa volta, assim como a cada visita que fiz enquanto estive fora, reafirmo meu amor por essa cidade. Ela é dura, injusta, louca e costuma abismar os olhos estrangeiros. Tem problemas que, para muitos, caminham para o insolúvel. A carência de planejamento urbano e social salta aos olhos diariamente, testando a paciência e a persistência de todos. Tudo isso é verdade em cada centímetro da cidade. Mas, para aqueles que a chamam de casa, São Paulo é mais do que a dificuldade no trânsito, do que as enchentes que a castigam, do que os desafios a serem vencidos. Reconhecê-la como lar traz a sensação de muito trabalho a ser feito, mas também de horizontes infinitos a desvendar. Quem vive e ama essa terra sabe que poucos lugares do mundo oferecem espaço para o olhar como essa cidade. Porém, para gostar dela, é preciso perceber a parte que nos cabe deste latifúndio. É preciso entendê-la, ouvir a voz que sussurra em meio às buzinas, às vozes, aos prédios altos que tapam o luar de vez em quando. É preciso decifrar as histórias do seu passado, da sua identidade que continua abaixo de nós como berço, em cada esquina.

Para entender e aceitar São Paulo, é preciso reconhecê-la. Atentar à sua mensagem de amplidão que nos grita por entre o concreto, dizendo que, se a decifrarmos, poderemos ser o que quisermos. E depois de entender a alma da cidade, depois de mergulhar nela, o olhar dificilmente conseguirá se acostumar com horizontes menores do que este. Ainda que em cenários opostos, diferentes e até mais gritantemente belos, ela nos acompanhará. Nossa compreensão continuará gigantesca, como os muitos rostos, estilos e mentes que a povoam. Como já disse outro pensador, você pode até tirar um paulistano de São Paulo, mas não tirará São Paulo de um paulistano.

E, para homenagear meu eterno amor em seu aniversário, quero fazer um mergulho nas coisas simples do dia-a-dia, que fazem a minha São Paulo. Listo aqui, como boas recomendações para quem quer desvendá-la, algumas (porque sei que ainda vou lembrar de muitas outras...) das minhas ocupações preferidas na Paulicéia – e outros desejos e passeios paulistanos que ainda tenho vontade de realizar. Tudo bem, tenho tempo. Ela, como sempre, está esperando de braços abertos. :)

Coisas que adoro fazer...

- Passear na Feira de antiguidades da Paulista aos domingos, constatando que os baús das nossas avós dariam pra abastecer ótimas barracas por ali.
- Aproveitar para ver alguma exposição bem boa no MASP e terminar a tarde com um choppinho no Opção.
- Andar sem pressa pela mesma Paulista, desvendando seus tesouros históricos e artísticos - e aproveitando pra dar uma voltinha no Parque Trianon.
- Sofrer ao querer comprar tudo na feirinha dos finais de semana no Center 3.
- Almoçar na Liberdade e depois conferir a também famosa feirinha no sábado ou domingo à tarde, aproveitando para conhecer a arquitetura do bairro – que vai muito além das charmosas lanternas nos postes de iluminação.
- Dar risada tomando chocolate quente com amigos na folclórica Cepê.
- Ver as novidades malucas da Benedito Calixto (ainda vou mobiliar minha casa com as coisas de lá!) e descobrir o artesanato cuidadoso dos artistas da Praça da República.
- Deixar o espírito voar diante da paisagem vista de cima da Comedoria do SESC – acompanhada do infalível capuccino e do pão de café com chocolate.
- Ficar tonta sem saber pra onde ir em noites e dias de Virada Cultural.
- Caminhar e sentar à sombra das árvores do Parque da Água Branca, e festejar o clima do lugar em dias de Revelando São Paulo.
- Acompanhar as ótimas atrações do Auditório Ibirapuera – e aproveitar para achar lindas, de novo, as curvas e retas do projeto de Niemeyer (Vai! rs).
- “Fazer a feira” com os achados da Zépa, aproveitando pra passar pela Estação da Luz.
- Engordar feliz com as maravilhas gastronômicas, e encher os olhos com as danças e o artesanato da Festa do Imigrante – aproveitando para conhecer o museu e achar alguns antepassados por lá.
- Olhar a lua cheia, linda em noites limpas, por entre os prédios da cidade.
- Ver o sol se abrindo em domingos de calor.
- Sentir a brisa perene que não nos deixa derreter no verão.

Coisas que já fiz e quero repetir...

- Visitar o Museu do Ipiranga e descobrir as lendas que se escondem entre os céus e a terra do lugar.
- Ir ao Instituto Butantã e à Estação Ciência.
- Me emocionar com uma missa em canto gregoriano no Mosteiro de São Bento.
- Voltar ao Pateo do Collegio.
- Acompanhar a programação do Museu da Língua Portuguesa.
- Assistir a uma ópera no Teatro Municipal.
- Comer muita pasta na Festa da Achiropita do Bixiga. Ou uma bela pizza em alguma das ótimas cantinas do bairro. Ma che!
- Admirar as ninféias do Jardim Botânico, pedaço de paz no meio da cidade.
- Aproveitar um sabadão ou domingão para prestigiar os belos vizinhos: as construções históricas de Paranapiacaba, a festa alegre dos finais de semana em Embu das Artes e, claro, a aposta de pegar um pouco de sol (com ou sem engarrafamento) no litoral!

Coisas que ainda não fiz (que vergonha!)

- Visitar a Pinacoteca do Estado.
- Conhecer a Sala São Paulo, se possível ouvindo uma bela sinfonia.
- Participar de uma visita guiada à Catedral da Sé, emendando com outra ao Centro Histórico de São Paulo – ambos já visitados e apreciados com o simples olhar de curiosa.
- Visitar o Museu de Arqueologia da USP.
- Visitar o Museu de Arte Sacra.
- Conhecer o Solo Sagrado.
- Participar das comemorações do Ano Novo Chinês (acabaram de acontecer!).
- Conhecer (e almoçar) no Mercado Municipal.
Quem quiser me acompanhar, está convidado. Boa Sampa para todos! :)

(25.01.2009 - Pastel com Chimarrão)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Janeiro

Janeiro, janeiro
Janeiro penseiro
Que traz novo início
Dos dias passantes.
Janeiro, janeiro,
Que traz as imagens
Que traz as paragens
Do céu das idéias.
Janeiro começo
De ciclo de vida,
Minha vida janeira
Floresce contigo.
Janeiro, guerreiro
Dos sonhos incertos,
Da espera de brisa
Das águas do ano.
Janeiro brincante
Janeiro gestante,
Me abre as janelas
Dos sonhos de dentro.
O mês de janeiro
Traz novas calendas
De árias, sirenas
Feitiços me põe.

(22.01.2009)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ressaca Piegas

Abro os olhos. O olhar ainda pesa sob os desvarios da noite passada. Noite passada? Mas parecem semanas, meses, anos. Aquela noite em que te vi, olhei nos seus olhos de água e mel, e o mundo pareceu se abrir todo para mim. Depois disso, admirada, me perdi no seu abraço. Não, não; antes conversamos a noite toda, entregues à sensação feliz de novidade. O salão era tão grande e a música mal tinha começado, e você já me procurava enquanto meu amigo te pregava uma peça, dizendo que eu não estava ali, que tinha desistido. E eu, quando soube disso, pensei nos seus olhos de jabuticaba se arregalando em susto, sorri e me enterneci com aquela cena tão pura de um coração puro. Depois, pensei no seu ímpeto de menino enquanto o mundo girava para nós. O corredor que levava ao quarto, tão estranho pra mim naquela noite improvável. Os azulejos testemunhando minhas tentativas de me recompor para me descompor em seguida, "sem medos", eu dizia, mais para mim do que para você. No seu beijo lembrei de outros milhares, milhares de anos em que te esperei, lágrimas e sorrisos que nasceram sem e por ti. A noite era leve, inocente e lindamente vazia como uma balada fácil de FM. E eu abraçava suas costas enquanto reparava no cordão negro que pendia do seu pescoço, tão você, tão bonito e tão passageiro.

Um copo a mais de vinho nas mãos da amiga aflita, "será que ele gosta de mim?". Nós sempre tão cerebrais. A baladinha segue como num capítulo de minissérie teen, e eu penso na sua camisa azul, no seu olhar de mentiras, nas mentiras que eu própria criei tantas vezes para mim, nos enredos de novela que vivi ou inventei. "Quem serão os padrinhos?", até isso nos perguntamos, enquanto a carta do Louco já ria de mim do fundo da fenda que se abriria depois. A fenda que sempre se abriu, deixando respiros entrarem, deixando entrarem os ventos gélidos que precedem as novas brisas frescas.

Pisco os olhos na cama, envolta no mundo tão conhecido da manhã. Na cabeça, me vem um verso malandro, roubado do poetinha, filtrado pela minha mente que adora inventar imitações.

"Amores, melhor não tê-los;
Mas se não os temos,
como sabemos
que vivemos?"

(20.01.2009)